Antonio
Carlos Souza - Tom
Este trabalho de
livre reflexão é voltado para a importância das teorias no exercício
psicoterápico e suas repercussões no papel de psicoterapeuta.
Dirijamos nosso olhar
para as práticas das ciências físicas e biológicas. Nestas existe uma sequência
em espiral que parte do fato. Dele segue-se uma tentativa de explicação –
hipótese - que para ser verificada requer uma nova experiência. A espiral
continua. Os resultados desta primeira experiência podem reforçar, negar ou ser
indiferentes à hipótese original. Os passos seguintes da espiral estão sempre
sugerindo experiências e verificando resultados. À medida que a explicação
contida na hipótese é capaz de fazer previsões que se confirmam em novas
experiências, passando a incorporar novos fatos, a hipótese passa a ser
considerada teoria. Com a teoria o experimentador tem um modelo
explicativo-operacional. Com esta teoria ele é capaz de explicar e, ao mesmo
tempo, operar com aqueles fatos assim explicados. Quando apareceu o primeiro
modelo teórico do átomo – o modelo planetário – foi possível planejar e
executar experiências que se converteram em múltiplos aparelhos e instrumentos.
Posteriormente, este modelo planetário foi substituído pelo modelo quântico em
razão das novas experiências não mais se adequarem ao modelo planetário. Ele
não foi considerado errado tanto que produziu aparelhos e instrumentos, mas foi
considerado inadequado. O aparelho de raios-X é filho do modelo planetário. O
chip já é fruto do modelo quântico. Outro exemplo é a teoria gravitacional e a
teoria da relatividade. Para corpos de certo tamanho a teoria da gravidade
explica e é operacional. Qualquer pedra caindo em nossa cabeça ou uma balança
são partes desta teoria. Para corpos, no entanto, infinitamente maiores ou
menores é a teoria da relatividade que é operacional. Elas não se excluem, mas
tem áreas de atuação. Até que surja outra teoria – a do campo unificado – que
as substitua.
Assim, as teorias nas
ciências físicas têm um caráter explicativo-operacional circunstancial. Elas
não são certas ou erradas. São modelos de aproximação. Logo que não sejam mais
úteis são melhoradas ou substituídas. Têm um caráter dinâmico e sempre
confrontadas com a realidade. São uma contínua espiral que passam pelo mesmo
ponto a distâncias diferentes, cada vez.
E em nossa área de
atuação? Como não somos experimentais, nossas teorias não são indutivas. Elas
não partem da parte para o todo. Elas são quase sempre dedutivas. Primeiro se
arrumam dentro da cabeça do criador e depois cada fato precisa se ajustar a
elas. É o leito de Procusto das Teorias. É como se o tempo não passasse e as
mudanças não ocorressem.
A realidade é
congelada. Quando falamos de teorias em psicoterapia não falamos em termos
operacionais. Falamos de feudos de poder. Uma é sempre verdadeira e as outras
são falsas. São sempre mutuamente excludentes. O distanciamento entre as
teorias e as práticas, entre o que se escreve e o que se faz, entre o que se
diz em conferências e o que se faz numa sala de terapia, é um verdadeiro fosso.
A teoria passa a ser o campo “do que faz sentido” e nem sempre ou quase nunca o
que apenas faz sentido é verdadeiro. E afinal de contas, o que é verdade em
psicoterapia? Nas ciências físicas a verdade é operacional, são modelos
operacionais, não é uma entidade absoluta. Será verdade em psicoterapia o que
seja operacional para os clientes? “Assim é, se lhe parece”. Será esta uma
visão cínica do exercício psicoterápico? Será cínica ou não-diretiva?
Será que as teorias
em nossa área não cumprem a função de ansiolíticos profissionais? Eles nos dão
um referencial fixo, uma explicação, um “porto seguro”. Não importa que não
sirvam para o exercício terapêutico. Não importa que a prática difira da
teoria. Elas são úteis para nós, não para os clientes. Como o exercício
terapêutico tem em sua origem o sacerdócio, talvez as teorias sejam o dogma
necessário a quem exerce este sacerdócio.
Após estas reflexões
penso em como deveriam ser as teorias. “Livre pensar é só pensar”. O que
podemos extrair de importante dos métodos das ciências físicas? É que a
reflexão sobre a realidade (que é a teoria) sempre se retroalimenta da
realidade. A questão do certo e errado é ultrapassada pela proposta de modelo, algo
essencialmente dinâmico, duradouro apenas enquanto útil. As mudanças ou
novidades modificam o modelo até o ponto de propor-se novo modelo. Assim, a
teoria é vista com a circunstancialidade de sua utilidade operacional.
Transpondo para a nossa realidade psicoterápica que temos? Como trazer isto ao
Psicodrama? Como falar de modelo associando-se à espontaneidade? O nosso
problema é que o modelo teórico não é operacional. A construção teórica em
nosso campo é muito mais uma visão de mundo, uma mirada, uma forma de perceber
o mundo. Ao se escolher uma teoria estamos escolhendo, dentre as muitas
possibilidades de enxergar, uma e tão somente uma. Por isso ela é
não-operacional. Por isso mudar de teoria soa como uma conversão, uma troca de
credo. “Ele agora é psicanalista”, “ele agora faz transpessoal”. Isto é igual a
“ele frequenta candomblé” ou “ele é crente”. Curiosamente, isto também se dá na
psiquiatria biológica. Optar pela psiquiatria biológica é também uma visão de
mundo semelhante às múltiplas escolas psicoterápicas. Um psiquiatra clínico
fazer formação psicoterápica (com exceção da cognitivo-comportamental) é visto,
pelo lado aonde chega como um resgate de uma alma do purgatório e é visto, pelo
lado de onde sai, como uma ovelha desgarrada sujeito a um leve abanar de
cabeça. Portanto, é toda a área PSI que está sujeita a esta utilização
profundamente afetiva e não-racional de construções teóricas. Por quê?
Continuando o livre
pensar. Lá atrás afirmamos que as teorias são necessárias para os terapeutas
não para os clientes. Somos nós que necessitamos deste terreno seguro, deste
apoio dogmático (ou quase). Claro que é possível chamar-se de referência,
balizamento, mas penso ser realmente um porto seguro. E por que a necessidade
de um porto seguro?
Quando um físico lida
com partículas subatômicas e suas experiências confirmam ou negam suas
hipóteses, ao voltar para casa, à noite, seu universo pessoal está a sua
espera. Acolhedoramente. A visão da realidade pode ser pragmático operacional.
Ele tem um porto seguro diferente do seu trabalho. Podem-se incluir aí todas as
práticas científicas não-Psi. Em todas, o porto seguro está separado da área de
trabalho. Conosco acontece de forma diferente. Nós trabalhamos dentro do porto
seguro tornando-o, portanto, inseguro. Quem nos dá um leito para repousar é a
teoria. Ela é a nossa certeza dentro da incerteza vivenciada. Trocar-se, assim,
de referencial teórico é um risco tão grande quanto saltar no vazio ou realizar
uma conversão religiosa. Saímos de algum lugar, mas não temos certeza se
chegaremos a outro. É por isto, penso eu, que nos prendemos às teorias
tornando-as verdadeiras profissões de fé e, também por isto, que elas se
multiplicam e se desdobram em tantas correntes, assim como os credos e seitas.
Para terminar, já que
o tema inclui algo de religioso, lembremo-nos de que em todas as religiões, a
maioria dos adeptos segue leis e dogmas, mas, sempre, em todas as culturas, há
alguns poucos indivíduos, denominados de místicos,
que ultrapassam os dogmas e as leis para estabelecerem uma ligação direta com a
divindade. Estas pessoas nunca foram, e não são ainda hoje, bem-vindas à grande
maioria dogmática. São verdadeiramente excluídos por criarem um ambiente de
liberdade em torno de si. Como não dependem da instituição religiosa e criam
correntes autônomas são sementes de revolução. Também no exercício
psicoterápico há de haver pessoas (quem dera!) com espírito aberto e
independente capaz de propor e realizar uma ligação direta com o cliente.
Usando mas ultrapassando as teorias. Seu objetivo está focado no cliente e não
na probabilidade da validação teórica. Seu centro de interesse é o ser humano
com quem está se relacionando, plenamente aberto à mútua exposição. São seres
humanos em que um ou alguns estarão, naquele
momento e naquele papel,
inteiramente diferenciados e outros, naquele
momento e naquele papel, em processo de diferenciação. Qualquer que seja a
teoria, o que a torna terapêutica é esta relação diferenciado/indiferenciado.
O resto? “O resto é silêncio”.
Bibliografia:
Kuhn, Thomas S. – A
Estrutura das Revoluções Científicas, São Paulo, Editora Perspectiva, 2001.
Antonio Carlos Souza é Psiquiatra Psicodramatista, sempre presente lecionando na PROFINT - Profissionais Integrados.

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