quarta-feira, 10 de junho de 2015

Artigo IV

           
Para que(m) serve(m) as teorias?
                                                          
       Antonio Carlos Souza - Tom      

      Este trabalho de livre reflexão é voltado para a importância das teorias no exercício psicoterápico e suas repercussões no papel de psicoterapeuta.
      Dirijamos nosso olhar para as práticas das ciências físicas e biológicas. Nestas existe uma sequência em espiral que parte do fato. Dele segue-se uma tentativa de explicação – hipótese - que para ser verificada requer uma nova experiência. A espiral continua. Os resultados desta primeira experiência podem reforçar, negar ou ser indiferentes à hipótese original. Os passos seguintes da espiral estão sempre sugerindo experiências e verificando resultados. À medida que a explicação contida na hipótese é capaz de fazer previsões que se confirmam em novas experiências, passando a incorporar novos fatos, a hipótese passa a ser considerada teoria. Com a teoria o experimentador tem um modelo explicativo-operacional. Com esta teoria ele é capaz de explicar e, ao mesmo tempo, operar com aqueles fatos assim explicados. Quando apareceu o primeiro modelo teórico do átomo – o modelo planetário – foi possível planejar e executar experiências que se converteram em múltiplos aparelhos e instrumentos. Posteriormente, este modelo planetário foi substituído pelo modelo quântico em razão das novas experiências não mais se adequarem ao modelo planetário. Ele não foi considerado errado tanto que produziu aparelhos e instrumentos, mas foi considerado inadequado. O aparelho de raios-X é filho do modelo planetário. O chip já é fruto do modelo quântico. Outro exemplo é a teoria gravitacional e a teoria da relatividade. Para corpos de certo tamanho a teoria da gravidade explica e é operacional. Qualquer pedra caindo em nossa cabeça ou uma balança são partes desta teoria. Para corpos, no entanto, infinitamente maiores ou menores é a teoria da relatividade que é operacional. Elas não se excluem, mas tem áreas de atuação. Até que surja outra teoria – a do campo unificado – que as substitua.
      Assim, as teorias nas ciências físicas têm um caráter explicativo-operacional circunstancial. Elas não são certas ou erradas. São modelos de aproximação. Logo que não sejam mais úteis são melhoradas ou substituídas. Têm um caráter dinâmico e sempre confrontadas com a realidade. São uma contínua espiral que passam pelo mesmo ponto a distâncias diferentes, cada vez.
      E em nossa área de atuação? Como não somos experimentais, nossas teorias não são indutivas. Elas não partem da parte para o todo. Elas são quase sempre dedutivas. Primeiro se arrumam dentro da cabeça do criador e depois cada fato precisa se ajustar a elas. É o leito de Procusto das Teorias. É como se o tempo não passasse e as mudanças não ocorressem.
      A realidade é congelada. Quando falamos de teorias em psicoterapia não falamos em termos operacionais. Falamos de feudos de poder. Uma é sempre verdadeira e as outras são falsas. São sempre mutuamente excludentes. O distanciamento entre as teorias e as práticas, entre o que se escreve e o que se faz, entre o que se diz em conferências e o que se faz numa sala de terapia, é um verdadeiro fosso. A teoria passa a ser o campo “do que faz sentido” e nem sempre ou quase nunca o que apenas faz sentido é verdadeiro. E afinal de contas, o que é verdade em psicoterapia? Nas ciências físicas a verdade é operacional, são modelos operacionais, não é uma entidade absoluta. Será verdade em psicoterapia o que seja operacional para os clientes? “Assim é, se lhe parece”. Será esta uma visão cínica do exercício psicoterápico? Será cínica ou não-diretiva?
      Será que as teorias em nossa área não cumprem a função de ansiolíticos profissionais? Eles nos dão um referencial fixo, uma explicação, um “porto seguro”. Não importa que não sirvam para o exercício terapêutico. Não importa que a prática difira da teoria. Elas são úteis para nós, não para os clientes. Como o exercício terapêutico tem em sua origem o sacerdócio, talvez as teorias sejam o dogma necessário a quem exerce este sacerdócio.
      Após estas reflexões penso em como deveriam ser as teorias. “Livre pensar é só pensar”. O que podemos extrair de importante dos métodos das ciências físicas? É que a reflexão sobre a realidade (que é a teoria) sempre se retroalimenta da realidade. A questão do certo e errado é ultrapassada pela proposta de modelo, algo essencialmente dinâmico, duradouro apenas enquanto útil. As mudanças ou novidades modificam o modelo até o ponto de propor-se novo modelo. Assim, a teoria é vista com a circunstancialidade de sua utilidade operacional. Transpondo para a nossa realidade psicoterápica que temos? Como trazer isto ao Psicodrama? Como falar de modelo associando-se à espontaneidade? O nosso problema é que o modelo teórico não é operacional. A construção teórica em nosso campo é muito mais uma visão de mundo, uma mirada, uma forma de perceber o mundo. Ao se escolher uma teoria estamos escolhendo, dentre as muitas possibilidades de enxergar, uma e tão somente uma. Por isso ela é não-operacional. Por isso mudar de teoria soa como uma conversão, uma troca de credo. “Ele agora é psicanalista”, “ele agora faz transpessoal”. Isto é igual a “ele frequenta candomblé” ou “ele é crente”. Curiosamente, isto também se dá na psiquiatria biológica. Optar pela psiquiatria biológica é também uma visão de mundo semelhante às múltiplas escolas psicoterápicas. Um psiquiatra clínico fazer formação psicoterápica (com exceção da cognitivo-comportamental) é visto, pelo lado aonde chega como um resgate de uma alma do purgatório e é visto, pelo lado de onde sai, como uma ovelha desgarrada sujeito a um leve abanar de cabeça. Portanto, é toda a área PSI que está sujeita a esta utilização profundamente afetiva e não-racional de construções teóricas. Por quê?
      Continuando o livre pensar. Lá atrás afirmamos que as teorias são necessárias para os terapeutas não para os clientes. Somos nós que necessitamos deste terreno seguro, deste apoio dogmático (ou quase). Claro que é possível chamar-se de referência, balizamento, mas penso ser realmente um porto seguro. E por que a necessidade de um porto seguro?
      Quando um físico lida com partículas subatômicas e suas experiências confirmam ou negam suas hipóteses, ao voltar para casa, à noite, seu universo pessoal está a sua espera. Acolhedoramente. A visão da realidade pode ser pragmático operacional. Ele tem um porto seguro diferente do seu trabalho. Podem-se incluir aí todas as práticas científicas não-Psi. Em todas, o porto seguro está separado da área de trabalho. Conosco acontece de forma diferente. Nós trabalhamos dentro do porto seguro tornando-o, portanto, inseguro. Quem nos dá um leito para repousar é a teoria. Ela é a nossa certeza dentro da incerteza vivenciada. Trocar-se, assim, de referencial teórico é um risco tão grande quanto saltar no vazio ou realizar uma conversão religiosa. Saímos de algum lugar, mas não temos certeza se chegaremos a outro. É por isto, penso eu, que nos prendemos às teorias tornando-as verdadeiras profissões de fé e, também por isto, que elas se multiplicam e se desdobram em tantas correntes, assim como os credos e seitas.
      Para terminar, já que o tema inclui algo de religioso, lembremo-nos de que em todas as religiões, a maioria dos adeptos segue leis e dogmas, mas, sempre, em todas as culturas, há alguns poucos indivíduos, denominados de místicos, que ultrapassam os dogmas e as leis para estabelecerem uma ligação direta com a divindade. Estas pessoas nunca foram, e não são ainda hoje, bem-vindas à grande maioria dogmática. São verdadeiramente excluídos por criarem um ambiente de liberdade em torno de si. Como não dependem da instituição religiosa e criam correntes autônomas são sementes de revolução. Também no exercício psicoterápico há de haver pessoas (quem dera!) com espírito aberto e independente capaz de propor e realizar uma ligação direta com o cliente. Usando mas ultrapassando as teorias. Seu objetivo está focado no cliente e não na probabilidade da validação teórica. Seu centro de interesse é o ser humano com quem está se relacionando, plenamente aberto à mútua exposição. São seres humanos em que um ou alguns estarão, naquele momento e naquele papel, inteiramente diferenciados e outros, naquele momento e naquele papel, em processo de diferenciação. Qualquer que seja a teoria, o que a torna terapêutica é esta relação diferenciado/indiferenciado.
      O resto? “O resto é silêncio”.

Bibliografia:
Kuhn, Thomas S. – A Estrutura das Revoluções Científicas, São Paulo, Editora Perspectiva, 2001.

Antonio Carlos Souza é Psiquiatra Psicodramatista, sempre presente lecionando na PROFINT - Profissionais Integrados.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Artigo III

AS BASES FILOSÓFICAS DO PSICODRAMA
                                                                                                                                                    Cybele M. Rabelo Ramalho

I. O Surgimento da Psicologia Existencial: uma questão da Metafísica e da Antropologia

             A Metafísica (a ciência depois da Física) surgiu com Aristóteles, na Grécia Antiga, quando este começou a falar do SER, do tempo, do movimento, fazendo estudos que ultrapassavam as evidências imediatas, ou seja, ultrapassavam a Física. Também com Heráclito surgiu a questão polêmica da temporalidade cósmica, da qual o homem participa. Porém, apesar desta evolução na época grega clássica, até o século 18 predomina no meio científico o Mecanicismo Moderno, pois com o surgimento das ciências Físicas, reduziram a visão do mundo a esquemas espaciais puros.
             Segundo as idéias predominantes de Descartes e Newton, o tempo era visto mecanicamente, como uma forma de quantificar o movimento. Com o surgimento das Ciências Biológicas, surge o organicismo, que reintroduz a noção de temporalidade na natureza orgânica. Somente no séc. XVIII, com Darwin, surge o Historicismo, pois com ele se faz a passagem da temporalidade orgânica para a cultural. Assim, com o amadurecimento da consciência histórica é que surgem as Ciências Humanas, estas sem referência e sem modelo. Daí, ou elas apreendem o modelo naturalista - positivista - mecanicista do homem, ou retocam as concepções Metafísicas antigas (dos gregos), ou tentam encontrar um novo modelo.
            No século XX o estudo da matéria imaginária, iniciado pela Psicanálise (sonhos, desejos), introduz uma temporalidade feita do imaginário, com recordação e influencia cultural. Assim, se descobre a dimensão simbólica, com as Filosofias da Linguagem.
             Com o surgimento da questão antropológica na Filosofia, a ciência da natureza passa a ser secundária em relação à ciência do homem. Na virada do século XIX para o XX, surge uma crise na Metafísica, todas as concepções do homem passam a ser questionadas, sendo Immanuel Kant quem começa a sinalizar esta crise nesta época. Porém, mesmo já na Grécia Antiga, e em vários outros momentos da história, o Homem havia se tornado uma questão para ele mesmo, não uma solução. Sócrates, no seu julgamento, em Atenas, já declarava: "O que eu proponho é uma ciência Humana". E já existiam na Grécia os terapeutas (sacerdotes), que interpretavam sonhos nos processos de cura...
             Embora desde a Mitologia Grega e na Tragédia Grega o inconsciente já tivesse sido mencionado, só foi introduzido na Ciência no final do século XIX, porque antes, a idéia do homem era colocada na vida manifesta, dentro de uma perspectiva racional e da consciência. Havia uma dicotomia presente nas visões da natureza x homem. A natureza era vista como irracional, instintiva, determinista; o homem como racional, consciente, livre.
          A Psicanálise no início do século XX nos mostra que o homem não é só isso, que não se pode estabelecer estas dicotomias, pois representam uma forma especializada de pensar. Lembremos o escritor brasileiro Guimarães Rosa: "O homem está no meio da travessia, nem num lado nem do outro da margem", e completemos com a famosa frase do humorista Millôr Fernandes: "Uma imagem vale por mil palavras, mas para se descobrir isto, tem-se de falar". No entanto, a posição determinista de Descartes afirmava uma dicotomia "mente x corpo", como mostra a sua célebre frase: "Eu não preciso do meu corpo para existir, apenas estou nele".
          Bom, com a crise da questão antropológica na Filosofia, o homem se torna não mais uma "idéia", mas uma interrogação, principalmente a partir dos fatos provocados pela Revolução Industrial. A automação, o anonimato das grandes cidades, provocam reações na idéia do “homem livre”, começando a surgir a percepção de que a sociedade progride em cima de contradições sociais (opressor x oprimido). Assim, a nova sociedade industrial construída desmente todas as idéias pré-concebidas do homem livre. Surge, então, a consciência de fatos novos:
-          "O homem é contraditório e desigual";
-          A consciência não determina tudo o que acontece; pois existem condições obscuras, da ordem material da sociedade (forças econômicas), da ordem inconsciente, instintivas (forças irracionais) e da ordem cultural (forças culturais). Assim, surgem as idéias de MARX, repensando a Economia, as idéias de FREUD, com a noção de inconsciente e as idéias de NIETZSCHE, revisando a Cultura.

. O Idealismo e a Dialética de Hegel:

          Este filósofo tentou justificar a História do Ocidente, através do resgate da razão e da consciência manifesta. Achava que tudo tinha um sentido. É considerado um Idealista porque afirmava uma legitimidade intrínseca da História, comandada pela racionalidade (a lucidez). Mas, seu maior mérito foi reformular o conceito de Razão, deixando de lado a concepção mecanicista e introduzindo a concepção dialética da razão. Para ele a razão é uma consciência histórica, cujo sistema é incompleto e aberto. A Dialética (surgida com Heráclito e Éfeso, no século VI  AC. e resgatada por Hegel, na Modernidade) significaria: o desdobramento de uma verdade no seu contrário e a síntese desta verdade com o seu contrário. Como no esquema. A (-A) = A (síntese).
           Na síntese, as diferenças não desaparecem, são absorvidas, não dissolvidas. Aponta que é na relação dinâmica de cada coisa com seus contrastes que a sua verdade se manifestará. A Dialética traz a idéia básica da mediação através dos contrários. Assim, Hegel tenta explicar tudo através do método dialético, levando ao extremo a visão Idealista. Por exemplo: para a Psicologia, a dialética pode ser entendida no processo de diferenciação do desenvolvimento infantil, onde o amor e o ódio (sentimentos ambivalentes) têm de ser confrontados e incorporados, para que possa surgir a maturidade em relação aos pais. Só se consegue pensar a Dialética pensando sempre as diferenças em relação dinâmica, sem estagnação, para se resolver as contradições. Na neurose, por exemplo, acontece a cristalização de oposições e contradições, não se vive o "estranho" e não se elabora a síntese, não se resgata. A dialética acontece no âmbito de cada ser e na relação com os outros seres. Por exemplo: EU - OUTROS: O Eu deve mediar o outro dentro de si. O outro sou Eu e o estranho, também.

II. O EXISTENCIALISMO DE SOREN KIERKEGAARD (1813 - 1855):

               Ele reage ao Idealismo de Hegel e à tradição filosófica, defendendo o auto - posicionamento do ser, do filósofo, dentro do seu pensamento. Com ele, o filósofo se demite do discurso universal, passa a tratar de si e só é compreendido mediante a sua vivência. Inaugura na filosofia o cunho Existencial, com a sua obra "O Desespero Humano". Repudia o discurso filosófico, alegando que este é o discurso de quem não consegue fazer a experiência mística da fé. Para ele, fazer Filosofia é esgotar as palavras para encontrar o vazio, onde o vazio pode atingir a experiência mística. Segundo ele, o incomunicável (a atmosfera, as metáforas) comunica mais do que as palavras, pois só quando estas se esgotam é que se consegue chegar ao alvo desejado. Quando reage a Hegel, reivindicando o indivíduo e alegando que a razão não esgota a existência, reivindica o caráter absoluto e transcendente do universal.
               Kierkegaard foi muito preocupado com a fé porque em sua vida não conseguir ter uma fé sem conflito, resgatando para a filosofia as idéias religiosas. Enfatiza não ter Deus e não se conformar em te-lo perdido, o que é também uma característica da sociedade contemporânea, pois sabemos que a sociedade medieval vivia amparada pelos conteúdos da fé religiosa. Em seguida, a razão impera nos séculos XVII e XVIII, entrando em falência no século XIX. Kierkegaard enfatiza este momento, voltando a trazer o tema da união do Homem com Deus, no êxtase místico. O EU SINTO dele se opõe ao EU PENSO de Descartes. Por exemplo:
               Segundo Kierkegaard,"Cristo veio para sentir. É o Deus que passa pela experiência. Não pode ser compreendido pelo sistema da Razão, só pelo sistema da experiência". Para ele, "não se pode conceitualizar a existência humana, ela está acima de qualquer racionalidade ou análise. A experiência humana é irredutível". Para opor ao "Penso, logo existo" (de Descartes), propõe "Existo, sinto, logo penso "(Kierkegaard) - "Onde não é possível pensar eu me encontrarei".
               Para ele, o homem é uma contradição viva, uma síntese do eterno e do temporal, o que gera o paradoxo.Estar diante de Deus é estar tomado pela angústia, em estado de pecado (é, segundo Fernando Pessoa, "é estar diante de uma parede sem porta"). Kierkegaard define três estados em que o homem pode viver:

1-      Estético - O sujeito vive a existência vinculado ao gozo, ao aqui - e - agora. Escamoteia a angústia. Está sermpre tendo de partir da estaca zero, não é capaz de ir fundo e dar continuidade. Como exemplo, temos a figura do Dom Juan, que ama todas as mulheres e não se encontra consigo mesmo.
2-      Ético - Ele tem um projeto moral e social amplo, mas tem uma vida interior limitada. Está no mundo do trabalho e do dever.
3-      Religioso - Só tem como interlocutor à altura o próprio Deus, que não se manisfesta; é o homem que vive o absurdo, a solidão e a incomunicabilidade.

       Sabemos, pela biografia de Kierkegaard, que este tinha uma ótima vida mundana, era sedutor, engraçado, vivia uma vida estética; no entanto, queria ter uma vida ética (casar, ter filhos, trabalhar, mas não conseguia), e tinha as ânsias de fé que sentia não conseguir cumprir (ambicionava alcançar a vida religiosa).
       A Filosofia dele traz a relação Homem x Deus e a compreensão existencial da síntese entre: o eterno e o temporal, o ser e o não ser, a transcendência e o imanência. Traz a dificuldade de realização da síntese, que encerra as contradições e paradoxos da existência. A fé abre as portas para a relação do homem com o Absoluto, ela é uma abertura. O Absoluto é uma parte substancial do ser e, se o indivíduo se colocar em face dele, passa a ter seu ser determinado pelo Absoluto.
         Ele segue uma dialética que não caminha para a superação, permanece no paradoxo. Não acredita na História da humanidade como a maior realização do homem, mas na subjetividade individual, vinda através da experiência religiosa. O homem se realizaria plenamente só através de situações aporéticas (negação da abertura), sem saída, sem abertura.
          Para ele, o componente principal da fé não é a dúvida, mas a angústia. A dúvida é um critério e um discernimento da razão, não da fé. Por exemplo, Abraão não duvidou de Deus, ele teve angústia. A fé pede o absurdo, ultrapassa o limite do ponderável, é uma crença ilógica, da ocorrência do improvável. O século XIX é o século da angústia, pois coloca em cheque o Absoluto. Segundo Kierkegaard: "A angústia constitui o possível da liberdade e apenas essa angústia forma, pela fé, o homem, no sentido completo da palavra, absorvendo todas as finitudes, descobrindo todas a ilusões".
           Para ele, a possibilidade de escolha está na Angústia. O possível é muito mais amplo que simplesmente as escolhas. Tudo está em aberto, tudo é possível. A angústia principal é diante do passado e não do futuro, porque é na relação com o passado que se determina a relação com o futuro. A angústia nos obriga a nos reconhecer no passado, coloca em cheque a nossa liberdade, no esforço de incorporação da única evidência que temos de nós mesmos. A angústia é a possibilidade de acontecer algo no presente, que rompe o indivíduo com o seu passado. Por isso, extrapolar os limites, romper com o desconhecido, ter um comportamento heróico em relação às possibilidades, as situações clandestinas, tudo isto cria uma relação de angústia com o passado. Por exemplo: o experimentar drogas, o roubo, a traição, o assassinato, etc. No entanto, a angústia não deve ser escamoteada para que não evolua muito e aniquile o Ser.
           O sêlo da nossa identidade é a nossa relação com o passado, que tem sempre de ser reciclado (nostalgia do lugar primeiro - compulsão à repetição freudiana, como uma saudade de um lugar onde nunca se esteve e nunca se vai estar). A crença de Kierkegaard é que o ser deve se abrir para o Mistério, sem tentar explicá-lo, pois ele não é para ser resolvido. A desmesura da razão é querer lidar com o Mistério, como se ele fosse um problema. Quer-se alongar o limite da razão, para se ter mais segurança.
           Nas relações mais profundas é que desabrocham os Mistérios. Mas, Kierkegaard propõe que não se trate a angústia como algo desagradável, mas como abertura do próprio ser. "Existir é ser um ser culpável", ou seja, é-se culpado por ser sempre um transgressor em potencial, estar sempre querendo ultrapassar as fronteiras do infinito.
          Um dos principais temas de Kierkegaard foi o Desespero (que significa literalmente sem espera, sem esperança), que para ele é uma doença até a morte. O homem é um ser desesperado. Para ele, o cerne da interioridade é a experiência da fé, mas ele afirma que o homem é um ser sem esperança. O verdadeiro desespero é quando se desespera de si próprio, quando quer libertar-se de si próprio e, ao mesmo tempo, querer ser a si próprio.
          O Desespero é uma resposta humana às dificuldades de conduzir a existência. O Desespero da finitude é condição da estreiteza do espírito humano, quando ele fica só no finito. O Desespero da fraquêza é não querer ser a si próprio. No entanto, para Kierkegaard, o EU é formado de Finito e de Infinito - é liberdade - está entre a categoria do possível e do necessário, nesta dialética. Enfim, o Existencialismo de Kierkegaard lançou as bases para o irracionalismo, o subjetivismo e o niilismo do século XX.

III. O EXISTENCIALISMO DE FIEDRICH W. NIETZSCHE (1844 - 1900):

          Considerado "o pensador maldito", apesar de ter tido formação religiosa e ser filho de pastor, vai romper com a Religião. É irreverente, iconoclasta e demolidor. Segundo ele mesmo, faz filosofia com um martelo (ou seja, quebrando, criando impacto). É um desconstrutor de sistemas, buscando perceber que, atrás destes, há sempre outra coisa. Resgata as pulsões, a libido, por trás das verdades cientificas postas. Demoliu os sistemas filosóficos e não colocou outro no lugar, pois desejou mesmo deixar à luz a realidade emergente escondida pelos sistemas. Sua função foi mostrar a realidade, desconstruindo as camisas de força lógicas, evidenciando os fatos que são encadeados dentro de um sistema lógico racional. Influenciou muito Michel Foucault, que se baseou na Genealogia Nietzscheana, orientando também a Antipsiquiatria Contemporânea e as psicoterapias existencialistas.
          Para ele, as verdadeiras razões não são lógicas, mas afetivas. O homem sempre buscou a verdade, através de 2 veículos: a razão (a ciência) e a fé. E afirma: "Não me interessa colocar mais um sistema da verdade. O que importa agora é: porque o homem tem vontade de alcançar a verdade?”. Assim, a sua perspectiva é genealógica. Sua filosofia é perspectivista, onde tudo vale, a partir do ângulo que se considera. É relativização, obrigando a uma circularização constante do seu objeto de estudo.
          A Genealogia é o estudo da gênese (busca da gênese, não através do fio lógico). Suspeita dos valores da cultura, colocando em cheque todas as certezas. Privilegia o latente ao manifesto. Para ele, o manifesto tem sempre uma conexão intelectual, racional, uma explicação que legitima e justifica aos fatos. Já o latente sempre tem um encadeamento afetivo, cronológico, que se dá ao curso da experiência do sujeito, movido pela vontade.
          A Vontade é um conceito muito forte em Nietzsche, tanto quanto o do inconsciente, em Freud (ele herdou este conceito de Shopenhauer). Esta Vontade não é necessariamente consciente e é diferente do livre arbítrio. É uma força emocional irracional, parecida com a pulsão. A realidade latente, movida pela Vontade, comanda o sistema manifesto. Ex: a Vontade de verdade comanda a vida humana.
         Porque o homem tem vontade de verdade?  Porque ele morre de medo do DEVIR. Ele procura a fisionomia estável das coisas, porque é angustiante viver com a transformação incessante, com o Devir. Segundo ele, o poeta consegue viver com esta transformação da forma, a consciência poética é a única capaz de lidar com a verdadeira realidade, pois caminha com a evolução das formas simbólicas. Nietzsche falava muito de como a sociedade racionalista perdeu a dimensão trágica e a consciência trágica, pois é nela que o homem poeta habita, pois com ela o ser vive e ama intensamente, é o âmbito da ambivalência. É difícil o homem viver a condição trágica, só o vive poeticamente, no amor ou na loucura.
          No seu famoso livro "Genealogia da Moral", ele avalia os valores culturais em sua gênese, os valores favoráveis à vida e os que negam a vida. Descreve que o homem é, ao mesmo tempo, apolíneo e dionisíaco, baseando-se nos deuses da mitologia grega, Apolo e Dionísio. Toda produção de vida tem o apolíneo e o dionisíaco, e é esta instabilidade que é terrível para a consciência, é angustiante conviver com esta transitoriedade, tanto que o homem se limita. Porém, quanto mais estável uma pessoa está, mais impossibilitada está de criar e recriar.Vejamos as bases destas oposições baseadas as simbologia dos deuses gregos: 1) APOLO: deus da forma perfeita, da luz, da aparência, do equilíbrio, da medida; 2) DIONÍSIO: Deus do vinho, da vegetação, das formas subterrâneas, da obscuridade, da embriaguês, da desmesura, do êxtase e da loucura.
          Na Natureza e no homem, quando culmina uma forma, ela já está se rompendo e fazendo surgir uma nova forma. Só que o homem tem a consciência, que o controla, temendo se auto-desintegrar. O homem se prende no apolíneo e teme a reformulação do dionisíaco. A consciência torna a mudança perigosa. Nietzsche afirma que reinventar (encarar as mudanças) é privilégio dos fortes, a maioria é rebanho e frágil. A Natureza protege os fortes, por seleção natural. Já a sociedade, protege o rebanho. Na hipocrisia cultural se tem um nivelamento pelo fraco, se substitui os fortes pela casta, que usufruem um sistema de privilégios (criando artifícios para fazer permanecer a verdade da casta).
          O congelamento das formas (primazia do apolíneo) é uma atitude anti-vida, pois paraliza o progresso da cultura. E tudo que mobiliza as tensões fundamentais do processo criador é VIDA. Se o movimento da vida se atrelar à forma, ela se toma anti-vida. Segundo ele, a Cultura Ocidental é apolínea, e a Oriental acaba promovendo o Nirvana, uma forma apolínea de resgatar o dionisíaco.
          Nietzsche crê que sua época é niilista e pessimista, porque o homem se movimenta dentro da existência em constante confronto com o Absurdo (viver, apesar de), estando sempre se preparando para o perigo e o risco. O homem niilista está sempre buscando a razão e, perdendo-a, cai num abatimento total, no aniquilamento. O homem já não crê mais nas utopias e cai no abatimento. Mas, ele propõe a saída deste aniquilamento através da coragem, da irreverência, da alegria e da ironia. Propõe ao homem enveredar pelos absurdos sem teme-los, propõe a GAYA ciência (a Ciência alegre, dionisíaca, do senso de humor).
          No seu livro "Os Quatro Grandes Erros", (in "Crepúsculo dos Ídolos"), crítica a moral, a religião e a idéia de causalidade. São para ele os quatro grandes erros:

1)      O erro da Inversão da causa com a consequência - Fica-se preso aos sintomas, às manifestações epidérmicas, não se vai à profundidade. O fascínio das conexões é tão grande, que se passa por cima dos conteúdos. Propõe que nos libertemos dos grilhões do macête, de colocar uma regra prévia a um acontecimento, fora do seu contexto específico. E propõe a "transvaloração de todos valores", ou seja, a inversão nos preceitos morais e religiosos. Por exemplo: O homem não se torna feliz porque fez uma coisa boa; porque ele é feliz é que faz coisas boas. A felicidade não é uma meta que se mereça atingir, se forem feitas coisas boas.
2)      Erro de uma Causalidade Falsa - O Eu é a causa mais fantasmagórica, não existem causas espirituais. São os pretensos motivos, que passam como verdadeiros, explicados sempre pelo Eu. Por exemplo, o dilema: "Eu quero, ou eu não quero alguma coisa". O "não querer" pode ser uma forma sintomática de um não poder ou de um não saber. A causa imediata acaba dominando, pois o "eu não quero" impede reflexões mais profundas, escamoteia a realidade.
3)      Erro das Causas Imaginárias - O indivíduo não pode viver sem causa, pois não se sente seguro. O novo, o estranho, fica excluído como causa. A causa imaginária fica colocada na ausência de causa, por imposição de um instinto causal. Daí ele questiona o limite da razão, propõe a convivência com a ausência de razões para muitas causas, pois são estranhas ao conhecimento. Por exemplo: as histéricas foram interpretadas como bruxas, causas pseudo-morais foram atribuídas ao comportamento delas, como castigo, como expiação dos pecados.
4)      Erro da Vontade Livre - Existe uma outra vontade, a pulsional, que independe da consciência, prenuncia o inconsciente. Atribuindo o livre arbítrio ao homem, dá -se a ele a responsabilidade e a culpabilidade dos seus atos. Critica a Psicologia racionalista, que se baseou no estudo do livre-arbítrio consciente. Nietsche afirma que a culpa não está só ligada à questão do livre arbítrio, o que mais tarde vai ser tema de estudos Freudianos. Na "Genealogia da Moral", ele afirma que a culpa é a raiva embutida, a impossibilidade de se posicionar diante de um obstáculo faz com que toda esta força se volte contra o indivíduo. A culpa é ressentimento, é o descontentamento consigo, é o remordimento. Existe uma culpabilidade arraigada no homem, que está nos arquétipos, provocada pela possibilidade constante de transgredir. O ser humano tem uma força que é maior que o seu limite ou suas fronteiras. Ou o ser humano sublima, ou ele transgride. A culpa vem da impossibilidade de sublimar. Sublimar é abrir um possível, que passa através do limite. Estar na iminência de transgredir gera culpa, que só é resolvida no domínio simbólico, sublimando. A Sublimação passa por baixo do limite, não o transgride.

       Nietzesche presenciou o intenso sofrimento humano com a perda da fé em Deus e a consequente desvalorização dos antigos ideais. Afirmou ser Deus uma hipótese criada pelo homem, que reduz a procura do sentido da realidade. Para tal ele tenta rebelar-se contra a moralidade e a culpabilidade, colocando-se além do Bem e do Mal. Propõe uma guerra contra todos os valores aceitos, nos ensina a descobrir a mentira e a hipocrisia latentes. Para ele, a fé cristã seria o refúgio dos fracos, visto que tal moral seria incapaz de conduzir o homem à auto-perfeição, uma vez que se apresenta como "tábua de salvação". As ditas virtudes cristãs esconderiam as fraquezas e as necessidades humanas (ressentimentos, desejos de superioridade, etc).
         Propõe então uma moral que seja representante da autenticidade, da alegria, da Vida, da felicidade, do auto-domínio e da auto-conhecimento, que não negue ou contrarie a Vida. Acrescenta que a superação de impulsos, sublimando-os, canalizando-os para uma atividade criativa, seria o processo dos mais fortes, do que ele chamou de Super-Homem. Enfim, Nietzsche afirma que, ao ser humano, ninguém pode conferir suas propriedades. O sujeito se dá suas próprias razões e normas. A faticidade do ser não pode ser desligada da faticidade de tudo que foi e será.
          Ele não culpabiliza o homem por coisas que acontecem dentro dele, confere uma inocência do Devir e desenvolve a noção do Cinismo, como a ausência da culpa. Propõe a libertação de toda estereotipia do mundo. Mas, isto não significa retirar do homem a sua capacidade mítica, de sonhar, etc. Condena a primazia da razão, que quer comandar tudo. Destrói o mito de que a inteligência humana é capaz de traduzir tudo que acontece. O intelecto para ele é um instrumento que garante sobreviver nas condições precárias da vida instintiva, já que os recursos instintuais do homem não são suficientes. A intuição (a apreensão mediante a vivência) é que seria a realização do humano por excelência, a verdadeira criação humana. Lamenta que a civilização supervalorize o intelecto e atrofie a intuição. A cultura operativa abafa a criatividade, a capacidade de criar conteúdos interiores válidos por si, independentes do pragmatismo da sobrevivência.
          Propõe uma comunicação intersubjetiva, de intuição, e defende o homem estético, que vive da sua sensibilidade poética, que usa metáforas, pois para ele é o que se realiza mais. Na sua expressão "O homem está pendente em sonhos sobre o dorso de um tigre" ( in "Verdades e Mentiras no sentido Extra-Moral" ) ele quer dizer que o homem é um todo, que resgata a totalidade (corpo e mente), mas descansa em cima de uma força (a natureza, seus instintos, seu inconsciente), que ele desconhece. Afirma que o sentido real é uma metáfora, e a partir dele se desencadeia toda uma reflexão sobre o simbólico, sobre o mito, sobre a linguagem metafórica e intuitiva, desenvolvida posteriormente pela Psicanálise e pelas Psicoterapias Existencialistas.
         Enfim, ele propõe o aprimoramento das possibilidades do Ser da pessoa, o desenvolvimento de uma Vontade de Potência. Para ele, na base de toda cultura que evolui estaria esta Vontade, que conduziria os homens e seus esforços pelo desejo de primar, aperfeiçoar e obter poder. Assim, os êxitos políticos, a arte e a filosofia seriam explicados por esta Vontade, assim como os valores da beleza, da bondade e da verdade seriam funções desta Vontade. Ela representaria o desejo do homem de superar a si mesmo e expandir sua força potencial. Através desta Vontade, propõe demolir o niilismo e o imobilismo europeu presentes do final do século XIX.
         A partir da influência de Nietzsche, a filosofia do século XX é invadida pelos temas da Revolta, do Absurdo e do Nada. O inconformismo passa a ser uma força no Ocidente, que não justifica mais o passado. A última tentativa filosófica sistêmica de justificar racionalmente o passado havia sido a de Hegel, e não atendia mais às evidências. Depois do Niilismo do final do século XIX (sentimento marcante de desespero, desamparo e desesperança), surge a revolta, que encaminha o homem para a liberdade, no início do século XX.
         A Psicologia deve a Nietzsche a preocupação com a profundidade introspectiva, a revolução do pensamento cultural do século XX, o despertar para uma consciência mais aguda do nosso mal estar, do nosso ser doente, e das nossas possibilidades e potencialidades. Buscou tudo que seria estranho e questionável no existir, o oculto, o proibido e o banido pela moral.
          Atualmente, a nossa cultura tem como fisionomia o cosmopolitismo, a globalização, o universalismo, a internacionalização, a burocracia e a tecnologia, que expressam uma racionalidade auto-suficiente. Não existe uma proposta ou missão determinante que nos tenha sido legada do passado. A História é apenas uma grande memória coletada, de onde se faz regates fragmentados, característica do Pós-Modernismo. Não existe uma continuidade histórica entre o passado e o presente, o que observamos é um grande hiato. A Cultura Ocidental está numa grande crise, e determinadas soluções se esgotaram. Porém, do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, consideramos que foi ótimo que isto acontecesse, embora seja duro abrir mão da Utopia, da idealização. O século XX não teve mais Utopia, muito menos terá o XXI. No final do século XX fomos capazes de fazer uma guerra fria, não mais revoluções. Supomos, enfim, que as propostas atuais têm de ser inventadas, no século que se inicia.


IV. O SURGIMENTO DA FENOMENOLOGIA:

          A Fenomenologia surgiu como crítica à tradição e ao Racionalismo predominantes até o século XIX. As primeiras teorias psicológicas do Associacionismo se baseavam na Razão como base para a compreensão da emoção, pois julgavam que todo conhecimento podia ser inteligível. A Fenomenologia tenta renovar a compreensão do ser humano, criticando os modelos de conhecimento vigentes e propondo um novo método.
           Foi criada por Edmund Husserl (1859 -1938), matemático por formação, que se tornou filósofo a partir de um problema de geometria. A partir dele surgiram três vertentes articuladas da Fenomenologia: 1 - As filosofias Existenciais (Heidegger, J.P. Sartre, Merleau Ponty, Jaspers); 2 - As Pesquisas Lógicas; 3 - A Epistemologia das Ciências Humanas.
          A Fenomenologia é um projeto de exposição de um método, mais do que uma exposição de teses. Não pensa em catalogar o real, mas em explicitá-lo e descrevê-lo. Para Husserl, é uma tarefa rigorosa, incompatível com o Psicologismo. Descrever fenomenologicamente faz eclodir a rede que envolve o sujeito e o objeto, as relações sócio-culturais, etc. O que descreve é envolvido pelo que é descrito, numa relação muito íntima, que ele vai chamar de Intencionalidade. Para esta noção, "toda consciência é consciência de alguma coisa", não existe a separação entre sujeito e objeto.
          Para Husserl, o mundo não é apenas o conjunto de representações que faço sobre ele, como afirmava o Idealismo. O mundo é contemporâneo à minha consciência dele, de forma correlata. A consciência não existe independente e autônoma como sujeito, ele depende da relação com o objeto e só existe a partir dele. Não há como separar o laço que une a consciência e objeto, na Intencionalidade. Toda consciência é essencialmente intencional - um movimento para fora, espontâneo, um registro pre-reflexivo. Considera uma ilusão a vida íntima, isolada, interior.
          Propõe uma "volta às coisas mesmas", mas sabendo que a coisa em si é impensável. O que se pensa e se percebe é a correlação (a conexão íntima, o laço) da coisa com a consciência que a percebe. O Fenômeno é a manifestação da coisa mesma, sem projeção subjetiva, aquilo que aparece, que se mostra.
          Através da sua noção de Intersubjetividade ele explica como as consciências se relacionam entre si. Para ele, o sujeito está sempre na verdade, mesmo que parcial, dependendo da sua relação, do laço que ele estabelece com o fenômeno. O ser é captado por limitações (da perspectiva), do laço entre os sujeitos. Para o homem, o mundo se dá como limitado à esta perspectiva. Na alucinação, por exemplo, temos mais um modo do mundo se dar ao sujeito, uma experiência diferente, um outro modo de acesso ao mundo.
          Para Hussel, a tarefa da Fenomenologia é elucidar o puro reino das essências. É essencial a busca das essências, mas para ele a essência não é introspecção. Ao atingir o sentido de um fato, deve - se fazer uma Redução Fenomenológica, deixando-se de pensar de modo introspectivo sobre o fato, de forma psicologicamente. Na atitude fenomenológica, procura-se recolher o que as coisas mesmas dizem, deixar que elas falem, e não o investigador pôr uma fala interpretativa sobre elas. Os fenômenos se mostram, dizem o que são. A percepção de um fato se dá com sua essência, simultaneamente, com o seu significado.
           Para os fenomenologistas, a essência é o SER da coisa, não a "coisa em si ". Ela é a armadura inteligível do ser. As essências não são eternas, nem absolutas, elas são temporais e finitas. Pode-se refazer a experiência da essência descobrindo-a com outros sentidos, num outro tempo, pois tudo pode se esvair no movimento da História. Apesar disto, o sentido transcende a História, que não a contradiz e faz compreendê-la melhor. O sentido mantém uma certa identidade no decorrer da História. Para Husserl, o Sujeito é transcendental, é um pólo subjetivo, uma condição de possibilidade, produtor dele mesmo.
          Assim, para ele o fenomenólogo deve buscar na sua atitude uma Redução Fenomenológica, uma tentativa de radicar a intencionalidade, um processo para superar, esforço para captar e explicar mais puramente o "laço"que une a consciência ao mundo. É a tentativa de apreensão da essência, suspendendo qualquer racionalização à priori, evitando qualquer psicologismo.


V. O EXISTENCIALISMO E A FENOMENOLOGIA DE MARTIN HEIDEGGER (1889-1976)

          Heidegger descreve e analisa radicalmente o Ser do Homem. Afirma que o homem é a condição de desvelamento do ser, um ente que interroga o sentido do seu ser. Propõe a passagem para uma Fenomenologia Hermenêutica, não transcendental, não como consciência redutora, ao contrário de Husserl.
         Afirmou que o ser no mundo já é parte do espetáculo da essência. A essência reside na forma da existência. Antes do olhar teórico, já existe algo prévio, o SER - AÍ, ou seja, o DASEIN, a existencia em sua faticidade. Assim, o Dasein é o campo da verdade do ser. O homem é abertura, produtor de significação. Na dimensão do ser no mundo, o homem é o acontecimento. Enfim, DASEIN = SER AÍ = SER - NO- MUNDO.
        Heidegger afirmou que ser homem é ser a interrogação pelo sentido. Entre todos os entes vivos, só o homem é o questionador. Heidegger não recusa a razão, mas não afirma que o ser se funda sobre o pensamento. Acha que o pensamento é que se funda sobre o ser, ao contrário da filosofia cartesiana. A interrogação deve ser feita a partir do ser em questão, não mais a Fenomenologia ser feita como descrição do que se dá ao olhar (como fazia Husserl). Deve ser feita, para Heidegger, uma interpretação que supõe a presença do próprio intérprete dentro dela (que seria a base da Hermenêutica).
          Heidegger criticou o fato de todos os saberes sobre o homem não o tornarem mais próximo ontologicamente de si mesmo, na nossa era. Pré-otonlogicamente, já somos compreensão de sermos. A Hermenêutica deve lançar mão dos nossos recursos naturais, do ser pré-ontológico, para compreender o ser.
        O que significa Hermenêutica? Significa decifrar um enigma, a arte de interpretar, de compreender os sentidos das narrativas, dos discursos. (Hermeneia = condução de uma mensagem; Hermes = Deus - Correio, responsável pela transmissão das mensagens no Olimpo). Heidegger propõe uma análise existencial do Dasein.
          O Dasein não é um sujeito no meio do mundo, ele é o seu mundo. O conhecer é um modo de ser no mundo, entre outros. O Dasein possui tres estruturas existenciais ou estados de ser no mundo: 1) Através do sentimento de situação (da tonalidade afetiva); 2) Através da compreensão (que não é razão, é o projeto do ser para o futuro); 3) Através da discursividade, da narrativa (da teoria, da razão).Estas três estruturas se articulam entre si.                                
          Para Heidegger, o ser pode optar por uma existência alienada, inautêntica, que se agarra ao presente, ou por uma existência autêntica. Nesta última opção, o ser deve estar atento aos cuidados cotidianos, mas não se descuidar do "grande cuidado", revelado pela Angústia, que o leva a uma preocupação com o mundo. Esta o leva ao momento agudo da Angústia do Nada, onde o mundo lhe aparece como uma totalidade, um pêso. Só a partir do enfrentamento deste Nada ele pode passar a existir significativamente como ser-no-mundo. Paradoxalmente, somente quando tudo perde sentido, ganha sentido.
         Para Heidegger, a Angustia não tem objeto, manifesta o Nada, a insignificância mundana, quando as significações banais do mundo são reduzidas. O que leva á Angústia é o próprio ser-no-mundo, desenraizado e sem segurança. Enfim, a analítica existencial proposta por ele visava conhecer o verdadeiro sentido do Ser em geral (análise ontológica) a partir da análise do ser concreto.

VI. A FILOSOFIA EXISTENCIAL DE JEAN PAUL SARTRE (1905-1980):

          É somente com Sartre que a Filosofia Existencial se afirma e se torna mais conhecida, como uma corrente que aborda com prioridade a questão da existência humana, embora no século XIX Kierkegaard já tenha sido considerado "o pai do existencialismo". No entanto, o Existencialismo tem alguns precursores ilustres, que criticaram o racionalismo e foram perplexos diante dos mistérios da existência, bem antes do séc. XIX. Entre eles, citamos Sócrates, Jó, Santo Agostinho e Pascal:
1)      Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo, que conhecerás ao outro, ao mundo e ao universo", e "minha questão não é a natureza, são os homens", foram frases célebres desde grande filósofo clássico.  Por outro lado, mesmo defendendo o conhecimento do homem, Sócrates acreditava ainda que a existência humana podia ser racionalizada, o que não o torna um existencialista.
2)      Jó - personagem bíblico: "Meu sofrimento não tem razão ou sentido". Ele descreve sua experiência de angústia, cuja explicação racional inexiste, que foi tão bem analisada por Jung, já no século XX, no seu livro "Resposta a Jó".
3)      Santo Agostinho: filósofo que se preocupou em estudar a interioridade das experiências da existência: "a vontade do homem é sempre dividida, conflituosa".
4)      Pascal: filósofo do séc. XVII, que também se dedicou a estudar a angústia, o desespero e os demais sentimentos humanos.
          Voltando a Sartre, suas principais idéias sobre o Existencialismo, são: 1) todo pensamento brota da existência; 2) a existência é aquilo que iremos refletir; 3) o pensamento é uma experiência vivida (é a existência que coloca problemas para nós); 4) nós estamos sempre envolvidos com o nosso conhecimento; 5) todo pensamento está limitado pela existência; 6) e finalmente sua famosa afirmação: "a existência precede a essência".
          Para Sartre, os homens sistematizam a existência e, embora a achem inexplicável, tentam explicá-la. Ele defende o uso de uma atitude mais prática e vivencial do filósofo, não apenas teórica. Filosofar, para Sartre, é fazer dialogar o sistema com a existência, sabendo que o ser existente jamais se deixa apreender totalmente.
           O existencialista se defronta com um problema sobre o qual não existe uma resposta final concluída. E descobre uma visão bastante angustiada do ser humano; e que existe, na existência, sempre algo inexplicável: o drama da experiência humana. Pois nenhum sistema racional consegue explicar o absurdo da existência e do sofrimento humano, que é vivido. Ou seja, a História, a Ciência, são construtos racionais para organizar e afastar a possibilidade de desintegração e do absurdo.Mas, Sartre acredita que acima da Cultura e da Ciência, continua a existir o caos e o absurdo. Por isto, o existencialista não procura mais a ordem ou o sistema final, pois a experiência da vida é irredutível. Acima dos sistemas de verdades estabelecidas existe a liberdade humana. Assim, a linguagem do existencialista passa a ser menos conceitual, menos explicativa, mais literária e fenomenológica.
          Para ele o homem está “condenado a ser livre” - tem a sua liberdade radical. É um ser em aberto. Não se tem mais a razão, mas o sentido, que é conferido pelo homem. Este sentido não é dado no mundo para que o homem o encontre, não existe em essência a priori, ele tem de criá-lo, através da sua ação. Assim, resta ao homem inventar o sentido do absurdo em que ele vive. O existencialista se coloca, portanto, em oposição a uma visão essencialista das coisas e em oposição ao filósofo essencialista.
         E o que seria uma filosofia Essencialista? A essência para estes filósofos seria um núcleo permanente, originário, aquilo que faz com que algo seja o que é. Segundo os filósofos essencialistas cristãos, foi Deus quem colocou a harmonia e a essência no mundo; pré-existem ao homem o bem, o mal, a justiça, etc. Já o filósofo essencialista ateu afirma que a essência não foi dada por Deus, mas por uma razão ordenadora global. Ambos, porém, nos remetem sempre a uma coisa "fora" que cria as coisas, pois para eles a essência precede a existência.
          Todavia, para Sartre a essência é pura comodidade verbal. Para ele a linguagem se remete a ela mesma, não a alguma essência ou alguma verdade. O que falamos, sempre se enraiza numa experiência não dita. A linguagem é um passo posterior e artificial, a compreensão prévia á linguagem é mais pura. O nosso conhecimento é muito mais do que conceituar. O ser se expressa através do sujeito, mas não é nunca uma expressão objetiva. Nós intuímos as essências, não as conhecemos.Não existe essência rígida e racional, como não há nada anterior ao homem, bem ou mal. Sartre propõe que pensemos a existência junto com o sujeito, pois ela depende dele. E defende a primazia da linguagem poética e intuitiva para a imersão na realidade.
          Para Sartre, a essência do homem é existir. Ele vem do Nada e a experi6encia da possibilidade do Nada é sempre convivida pelo homem. São características da sua filosofia:
1)      Filosofia do Absurdo: se não tem Deus para criar o homem e a sua essência, ele está solitário e desamparado, sua existência é absurda, pois não tem uma razão última que o preceda.E o maior absurdo é a morte.
2)      Filosofia da Liberdade: o homem só é livre porque não tem uma essência definida a priori, el pode ser qualquer coisa, assumir radicalmente a sua liberdade.Surgem daí as questões: a) da criação do seu Projeto de vida; b) da criação do seu compromisso histórico com a humanidade; c) da criação dos seus valores.

        Para Sartre, o Bem é o ato de escolher, não os valores morais que o determinam. E o fato de ter de escolher sempre leva o homem a procurar o melhor para si (mas o melhor não entendido no sentido moral). Tudo que o homem escolhe é um bem para ele naquele momento, pois o mal é não escolher. Quando ele não escolhe está num estado de "má fé".
        Para Sartre o homem é responsável pelas suas escolhas, esta é gratuita, não existe uma razão última que a justifique anteriormente, como melhor ou pior. E isto gera angústia. Portanto, a angústia para Sartre vem da liberdade, ao contrário de Heidegger, que afirma que ela vem do Nada. A escolha em Sartre é feita no contexto ou situação do ser-no-mundo, política e social, no seu momento histórico. A escolha e a angústia vêm do reconhecimento humano dos seus limites. O homem é o autor do seu destino, a existência não tem um significado a priori, cabe a ele dar o seu sentido. Por isso, Sartre vê sua filosofia como otimista e não pessimista, como muitos a apontam. Acredita no potencial humano para criar e transformar a realidade através do trabalho e do seu compromisso com a coletividade, com a humanidade em geral.
          A questão do vinculo Eu -Tu ou a questão do OUTRO também foi muito trabalhada por Sartre, em seus livros filosóficos, romances e peças teatrais. Na sua peça "Entre Quatro Paredes", ele afirma que "o inferno são os outros". Segundo Sartre, estamos obrigados ao olhar do outro e necessitamos dele, o que é para nós um suplício. Cada consciência é um centro de referência único, mas o outro não me aparece como um objeto, mas sim como uma nova consciência, que tem o poder de reorganizar tudo ao seu redor. O OUTRO é o centro de um outro mundo, que me vê.E a única maneira de ver a si mesmo é através deste OUTRO. Eu vejo o OUTRO a partir desta experiência contraditória da fusão e da separação. Ao mesmo tempo, eu sou este Eu que o OUTRO conhece, e também não posso determinar o que eu sou para o outro. Sou objeto do olhar do OUTRO e sujeito de todas as minhas coisas. No olhar do outro, não sou dono da minha imagem, ele me congela, me fixa, me constitui, me faz me ver, me dissolve, me nega e me afirma.Daí o meu sofrimento e angústia diante do seu olhar.
         Enfim, Sartre fundamentou suas idéias em Carl Marx, Husserl e Heidegger, autores que tem em comum o papel ativo do indivíduo na construção do seu próprio destino. Os pontos básicos estudados por ele foram: o ser e o nada, a consciência e a transcendência e os caminhos da liberdade.
          Para os existencialistas, a capacidade que o homem tem de criar a si mesmo faz parte da condição humana, não da natureza humana. Enquanto que para os Existencialistas é o homem que tem de criar as suas potencialidades, para os Humanistas o homem tem de desenvolver as suas potencialidades. Os teóricos Humanistas falam da descoberta do eu e os Existencialistas da criação de uma subjetividade. Assim, afirmamos finalmente que o Psicodrama não é uma abordagem Humanista, mas sim fenomenológico-existencial.

          Como entra o Psicodrama de Moreno neste contexto filosófico?

          O Psicodrama é uma das terapias de base fenomenológico-existenciais, tanto quanto outras terapias vivenciais, como é exemplo também a gestalt-terapia. Estas abordagens vivenciais têm como base ajudar o cliente a experienciar a sua existência, buscando a compreensão fenomenológica do ser existente. Partem do princípio de que o homem é construtor de si próprio e do seu mundo. Buscam fazer o indivíduo alcançar uma existência autêntica, espontânea e criativa. Nestas abordagens, a técnica e a teoria são secundárias em relação à pessoa e à relação terapeuta e cliente.
             Nas abordagens fenomenológico-existenciais busca-se o desenvolvimento da intuição, da liberdade e da sensibilidade, e não se utilizam enquadramentos diagnósticos psicopatológicos. Vê-se o neurótico como alguém que ainda não encontrou seu caminho de crescimento, que se submeteu ás conservas culturais, cristalizou papéis e deixou de ser espontâneo criativo, perdeu o sentido da sua vida. Enfim, para o Psicodrama, o neurótico tem dificuldade de viver o aqui-e-agora e o Momento, pois falsifica o fluxo das suas vivências. Os existencialistas e psicodramatistas concebem o homem como um ser inacabado, em eterno devir.
           Enfim, as terapias vivenciais de base fenomenológico-existencial, tem como objetivo fazer com que o indivíduo possa resgatar a liberdade de poder utilizar suas próprias capacidades para existir, para reaprender a utilizar a sua liberdade de forma responsável, para ele ser o que ele é. Para tal, promovem uma relação terapêutica que privilegia o Encontro Existencial Eu-Tu, que recria e permite o Encontro na vida, em outras relações sociais.
         Segundo ALMEIDA (1988:39),

 "as psicoterapias de base fenomenológico-existenciais procuram, a  partir da Análise Existencial de Ludwig Biswanger (1881-1966), que por sua vez inspirou-se em Freud e Heidegger, o sentido da vida e da luta do homem (...).Pretendem ter uma dimensão maior, além dos níveis psicológico e psicopatológico, estabelecendo como metas a busca de referências éticas, espirituais, filosóficas e axiológicas.Surgiram como oposição ao determinismo das terapias chamadas científico-naturalistas ou explicativo-causais".
        
           Moreno pretendeu que cada sessão psicodramática fosse uma experiência existencial. Através do discurso Moreniano, podemos encontrar os conceitos básicos da Fenomenologia Existencial, tais como: existência, ser, temporalidade (aqui-e-agora), espaço, encontro, liberdade, projeto, percepção, corpo, imaginário, linguagem, sonhos, vivência, etc.
          No método fenomenológico em geral encontramos o método psicodramático em seus princípios básicos, quando, por exemplo, defende o exercício da intuição, da redução fenomenológica, da arte da compreensão, da atitude ingênua diante dos fenômenos, sem definições a priori. A atitude ingênua, a inter-subjetividade a intencionalidade e a intuição estariam na relação Eu-Tu do Psicodrama, e não na relação Eu - Ele, Eu - Isso ou Eu - aquilo.
          O método psicodramático também é um método sempre aberto a novas investigações, como é o fenomenológico. Para Moreno, "uma resposta provoca cem perguntas". Por ser um método aberto, não se conclui que o método psicodramático seja caótico e desordenado. Pelo contrário, ele permite acompanhar um mundo em movimento com regras que impedem a cada um uma participação autoritária ou irresponsável (ALMEIDA, 1988:28).
         Moreno, ao ler as fantasias de Kierkegaard nas páginas do seu Diário, considerou-o um "psicodramatista frustrado", mas admirava sua filosofia e compartilhava de suas posições. Reconheceu que o grande êxito do filósofo foi ter sido sincero consigo mesmo, analisando sua própria existência, levando uma vida pessoal de acordo com sua verdade subjetiva. Moreno tencionava com o Psicodrama permitir que as pessoas vivessem em plenitude suas inquietações psicológico-existenciais, de modo a não ficarem estratificadas nas páginas de um diário.
         No seu livro "Fundamentos do Psicodrama", na Sexta Conferência (Moreno, apud ALMEIDA, 1988:44), Moreno demonstra sua clara preferência pelo Existencialismo:
        
        "Ser é algo que não tem fronteiras; não reconhece como limites o crescimento e a morte, os inclui. Se estende no tempo e no espaço e se centraliza nesta pessoa, neste momento e neste aqui. Ser e saber são inseparáveis. Ser, no sentido corrente da palavra, não requer o saber. Mas a recíproca é coisa absurda. Ser, nesse sentido, é precondição do saber. A partir do saber, nunca poderíamos alcançar o ser".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMEIDA, W.C. "Psicoterapia Aberta - Formas do Encontro". São Paulo, Ágora, 1988.
ERTHAL, T.C. S. "Terapia Vivencial: uma abordagem existencial em Psicoterapia". Petrópolis, Vozes, 1989.
DARTIGUES, André. "O que é Fenomenologia?". Rio de Janeiro, Eldorado, 1973.
GILES, T. R. "História do Existencialismo e da Fenomenologia". São Paulo, EDUSP, 1975.
BUBER, Martin. "O Eu e o Tu". São Paulo, Cortez e Moraes, 1977.


Artigo escrito por Cybele Ramalho - CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT - Profissionais Integrados.


Artigo II

APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CAMPO PSICOTERÁPICO E SOCIO-EDUCACIONAL

 Cybele Maria Rabelo Ramalho*
Vanessa Ramalho F. Strauch*

      
 Este texto visa refletir a respeito do percurso do Psicodrama enquanto abordagem aberta à criação de novas estratégias e técnicas, numa visão transdisciplinar. Apresentamos o relato de uma pesquisa que temos desenvolvido a respeito do que denominamos de Sandplay Psicodramático. Este é um jogo desenvolvido na caixa de areia, inspirado na técnica clássica do Sandplay da abordagem junguiana, porém adaptado ao contexto teórico e prático do Psicodrama e ampliado para o foco sócio-educacional, além do clínico. Apresentaremos a técnica clássica do Sandplay (desenvolvida pelos terapeutas junguianos) e, em seguida, demonstraremos como desenvolvemos na nossa experiência, uma pesquisa de adaptação desta técnica no contexto do Psicodrama, tanto no bipessoal, quanto grupal e com casais, nos focos psicoterápico e sócio-educacional. Ilustramos este capítulo apenas com breves exemplos da aplicação deste jogo no contexto psicoterápico, na psicoterapia de casais e com uma criança.
Introduzindo...
      Partimos da premissa de que, apesar de se constituírem teorias aparentemente distantes, aproximações podem ser feitas entre algumas técnicas desenvolvidas pelas abordagens Junguiana e Psicodramática (RAMALHO, 2002). Como antecedentes históricos, temos já na literatura psicodramática o exemplo do Psicodrama Interno, técnica psicodramática desenvolvida por Fonseca e Dias (1980), recebendo a influência da técnica da Imaginação Ativa de Carl Gustav Jung (1875-1961), entre outras. Este último privilegiou o trabalho espontâneo com as mãos para o desenvolvimento das “sementes criativas” do indivíduo, revelando que, quando há um alto grau de crispação e de rigidez do consciente, muitas vezes só as mãos são capazes de fantasiar, de criar de possibilitar o acesso a imagens inconscientes.
             Por outro lado, Jung desenvolveu a técnica da Imaginação Ativa (já descrita no capítulo II deste livro), que toma como ponto de partida uma imagem de sonho ou de fantasia, em seguida solicita que o cliente desenvolva livremente o tema trazido pela imagem, utilizando não somente a palavra (o diálogo, o confronto com a imagem), mas também outras possibilidades: a dramatização, a dança, a escrita (inventar uma estória), a pintura, a criação de uma cena ou ritual, a modelagem, etc. Assim, ele instala, à semelhança de Jacob Levy Moreno (1889-1974) com o Psicodrama, a conjugação da imagem com a ação, promovendo o desdobramento do processo inconsciente.
             O objetivo da Imaginação Ativa desenvolvida por Jung é o diálogo ou confrontação com imagens inconscientes, para que estas possam ser compreendidas e se alcance seus múltiplos sentidos, sejam eles ao nível do inconsciente pessoal, do co-inconsciente ou do coletivo. Nos casos de maior dificuldade emocional, como é o caso das psicoses, recomenda-se estabelecer-se uma comunicação inicial a nível não-verbal, pois a verbal só terá êxito quando o processo de crescimento e de elaboração do cliente estiver bastante adiantado (SILVEIRA, 1981:102).
           Citamos o trabalho de Jung e em especial a obra de Nise da Silveira aqui no Brasil (1981), no Museu de Imagens do Inconsciente (Rio de Janeiro), como antecedentes históricos para a terapia na Caixa de Areia. Esta, por sua vez, é um exemplo de trabalho específico com a Imaginação Ativa e com uma realidade suplementar, e também parte do princípio básico de que a expressão plástica e criativa em geral é um eficaz e importante recurso terapêutico. 
            Porém, o estudo de imagens do inconsciente nos obriga a inserir uma nova visão científica e uma ampliada visão de homem. A adotar a visão de que o homem é um ser físico e metafísico, material e meta-natural, cultural e meta-cultural. A ver o homem como um ser cosmo-psico-bio-antropossocial, inserido na Natureza, na cultura e na diáspora global cósmica. Nos leva a revisar e ampliar os modelos da ciência psicológica e a usar um novo paradigma científico, que abarque a lógica a-causal, intuitiva, integradora. Assim, adotar uma visão eco-sistêmica-complexa (MORIN, 2001).
            Segundo o próprio Jung, esta nova visão nos leva a promover a abertura da razão para outros saberes e aceitar a possibilidade da indeterminação, da incerteza, da imprevisibilidade e da sincronicidade. A ter coragem para investigar fenômenos tidos como não científicos pelo paradigma cartesiano (que é linear, apolíneo, mecanicista, simplificatório, reducionista, pois costumou dualizar razão/imaginação, sujeito/objeto, etc.). Assim, o psicoterapeuta deverá investigar as imagens e sombras do inconsciente sem os métodos racionais costumeiros, ou seja, estando aberto à utilização da arte como meio de acesso ao inconsciente (pessoal ou coletivo), não dissociando arte-vida-ciência. 
             A Socionomia de Moreno, por outro lado, parte da compreensão em redes de relações sociais, inserindo-se também no novo paradigma contemporâneo da complexidade, uma vez que focaliza a compreensão eco-sistêmica das realidades. Podemos afirmar que, para Moreno, o sujeito não é apresentado como origem, como algo pré-formado, acabado, como algo a priori; e sim como campo de produção, de subjetivação, campo que se define num espaço-tempo determinados, nas relações que vão se constituindo.
           Afirma Edgar Morin (2001) que somos parte do cosmos, mas cada indivíduo com sua singularidade. O mundo está inscrito em nós. No universo, tudo está relacionado, a parte no todo e o todo na parte, ou seja, o universo está inscrito em nós. E nos afirma igualmente Moreno, que todos os seres humanos são infinitamente criadores e co-criadores num mundo de relações, independentes uns dos outros (singularidades), mas na inter-subjetividade e numa unidade com o cosmos. "Esta é a lei do universo: onde houver uma parte da criação, estará uma parte do criador, uma parte de mim" (MORENO, 1975, p 78).
          Na Socionomia Moreniana, portanto, o grupo é atravessado pela transversalidade, cada indivíduo contém o grupo e é contido por ele. O indivíduo em uma sociedade é uma parte do todo, que intervém na sua história desde o nascimento, através de linguagens, normas, proibições, aprendizagens, desempenho de papéis, etc.
        Enfim, afirmamos que Moreno e Jung, cada um através do desenvolvimento de teorias e metodologias próprias, talvez complementares, se aproximam nesta forma de pensar a complexidade dos fenômenos da natureza e do humano, inserido numa rede de relações. Moreno, centrado nas relações interpessoais e Jung, nas relações do homem consigo mesmo, mas ambos sem perder de vista suas relações mais amplas e transcendentes. Com isto, justificamos a direção desta pesquisa com o Sandplay Psicodramático, uma estratégia de trabalho que integra um pensar complexo e multidisciplinar, entre a obra psicodramática de J. L. Moreno e a obra da Psicologia Analítica de Jung.
Desenvolvendo...      
          A Terapia na Caixa de Areia (ou Sandplay) não é considerada uma simples técnica, mas uma forma metodológica de psicoterapia desenvolvida inicialmente pelos analistas junguianos. É uma forma de terapia não-verbal, vivencial, não racional, que visa atingir um nível mais profundo da psique. O jogo de areia foi idealizado por Margareth Lowenfeld em 1929, quando criou a Word Technique, introduzindo o brinquedo na relação analítica com crianças.
        A analista junguiana suíça Dora Kalf, em 1956, aperfeiçoa a técnica de Lowenfeld e publica o livro Caixa de Areia: uma abordagem psicoterapêutica da psique. O seu método permite uma regressão criativa e facilita o processo de crescimento psicológico, através da expressão tangível, concreta e tridimensional dos conteúdos inconscientes. Assim, o Sandplay na abordagem Junguiana permite o fazer simbólico da psique, se constituindo num método psicoterápico do nível pré-verbal, pois as cenas representadas no cenário da Caixa de Areia são consideradas fotografias do inconsciente, naquele momento específico. Através da criação com as mãos, as forças se tornam visíveis e reconhecíveis, ou seja, o interior e o exterior de algum modo se conectam. Por outro lado, atua como um processo transformador da visão de mundo, levando a uma ampliação da consciência, a partir do confronto com os processos inconscientes (WEINRIB, 1993; AMMANN, 2002; FRANCO, 2003).
          O Sandplay na Caixa de Areia se caracteriza por ser um jogo sem regras, com as seguintes características:
a) Equipamento: uma ou duas caixas retangulares, uma com areia seca outra com areia molhada.  Dimensões: 72 cm x 50 cm x 7,5 cm. A caixa é cheia de areia clara, tem um fundo azul escuro (para imitar mar, rio) e as bordas são azul claro (para imitar o horizonte);
b) Miniaturas variadas, que são representações da realidade e do imaginário, ou seja, muitos objetos à mostra, simbólicos ou não, utilizados para re-criar o mundo. Quanto maior o número de miniaturas a disposição nas prateleiras, melhor. Deve incluir animais, vegetais, formas humanas diversas, figuras mitológicas, de contos de fada, objetos (dos mais simples aos mais simbólicos);
c) Nenhuma instrução rigorosamente é dada. Em geral, a caixa só deve ser oferecida após uma vinculação já estabelecida com o terapeuta, e quase nunca nas primeiras sessões. Se o cliente solicitar logo no início da terapia, o terapeuta deve explicar-lhe que a técnica aborda outra linguagem e que haverão sessões em que ela será necessária, para se utilizar uma outra forma de se comunicar, além dos desenhos, dos sonhos, etc.

       
       Ao propor iniciar o trabalho na caixa, o terapeuta deve intervir, dizendo mais ou menos o seguinte:“Coloque as mãos na areia, e sinta-a, livremente... deixe que ela fale algo para você... Olhe os objetos ou miniaturas nas prateleiras, atentamente... Deixe os objetos lhe chamarem.... deixe-se atrair por eles. Pegue-os e construa uma cena ou cenário com eles na areia... Não pense muito, tente não racionalizar, nem se preocupar com a beleza... use a sua imaginação".No final do trabalho, o terapeuta deve questionar : “Você quer falar alguma coisa ? Quer dar um título a este cenário ? Quer criar uma estória com ele ?”.
Integrando Sandplay e Psicodrama
         Ao criarmos nossa adaptação da técnica junguiana para a abordagem psicodramática, realizamos uma pesquisa de longa duração (entre 2002 e 2004) com a aplicação da técnica em  diversas modalidades de atendimentos. Seguimos estas instruções originais da técnica clássica, mas, após a criação da estória, propomos ao cliente que ele dramatize a cena, se colocando inicialmente no papel de cada elemento escolhido e falando em nome dele, no “como se”, sendo pelo terapeuta entrevistado. Em seguida, solicitamos que inverta os papéis, e daí por diante podemos utilizar as demais técnicas básicas do Psicodramas, como por exemplo: o duplo, a entrevista nos papéis, solilóquios,  a interpolação de resistências, pedir que movimente as peças como desejar, usando a inversão de papéis promovendo confrontos entre as miniaturas, etc.
          O cliente é encorajado a criar aquilo que desejar na caixa de areia (exemplos: um cenário qualquer, uma paisagem qualquer, passagens de sonhos, uma imagem de como sente uma relação interpessoal ou consigo mesmo, esculpir na areia livremente, etc.).
         Consideramos o Sandplay é uma espécie de “imaginação ativa concreta”, mas que também permite o acesso a uma realidade suplementar. Observamos que a encenação na caixa pode revelar alguns complexos emocionais, a relação persona X sombra, papéis imaginários e de fantasia, que podem ser então trabalhados através da ação psicodramática.
         Apesar de atrair muito às crianças, o adulto também brinca na caixa com seriedade, entrando num rito de iniciação do sentimento, do afeto e do mundo espontâneo-criativo da criança. Lembranças perdidas vêm à tona e aumenta a capacidade de distinguir o ilusório do real, uma vez que trabalha na "brecha entre a fantasia e realidade". Por outro lado, favorece a catarse de sentimentos.
           Após construir o cenário e construir posteriormente uma estória imaginária ou uma fantasia, propõe-se ao cliente o desenvolvimento de uma ação dramática em seguida. Porém, esta só se tornará mais eficaz se for desenvolvido um projeto dramático conjunto, entre terapeuta e cliente, com uma resolução dramática.
           Assim, a técnica em si mesma pode se tornar também uma forma de reflexão, pois fomenta a sensibilidade para as imagens internas, condição para o relacionamento com o mundo interior, favorecendo a concentração relaxada. Ao se completar o cenário, a tensão é aliviada, toma-se consciência da condição interna exposta.
         Enquanto psicodramatistas, ao utilizarmos o Sandplay como um jogo psicodramático, introduzindo a ação dramática na caixa, a ênfase para nós é a busca da dramaticidade, do conflito ou do tema protagônico a ser trabalhado. Partimos do princípio de que se compreende melhor uma ação se ela for dramatizada, vivenciada, experienciada, de preferência com efeito catártico integrador, pois isto facilita o processo de “objetivação do subjetivo”, e a passagem do imaginário ao simbólico.
      
        Observamos como resultados da nossa pesquisa, que o jogo na Caixa de Areia ou o que denominamos de Sandplay Psicodramático, é um jogo livre em circunstâncias seguras, que contem dramaticidade e pode revelar conflitos, tal como se espera de um jogo psicodramático.
        
       Ao contrário do Sandplay Junguiano, as cenas do Sandplay Psicodramático poderão ser desdobradas, recriadas e transformadas em novas cenas, a partir do desenrolar do role playing ou do jogo dramático. Pois, como afirmamos, o cliente vai sendo entrevistado, assumindo os diferentes papéis dos elementos/personagens expostos no seu cenário, além de desenvolvendo diálogos, confrontos, movimentos, criando novas cenas, etc. Pode inclusive recriar novos cenários a partir do inicial, no desdobramento de seu drama.

         J. L. Moreno enfatizou o trabalho no plano do “como se”, que pode ser desenvolvido no nível de desenvolvimento de uma realidade suplementar. Ao experienciar este “plus de realidade” no Sandplay, o cliente pode vivenciar seus mitos pessoais e coletivos, sonhos, delírios e fantasias.
         
        Utilizamos como sujeitos da nossa pesquisa uma grande variedade de clientes em diversas modalidades de atendimento. Observamos que a técnica é mais indicada para pacientes considerados "normóticos" e que se deve evitar trabalhar com boderlines e psicóticos, para não correr riscos de ativar um surto. No campo clínico, é uma técnica muito indicada para crianças, adolescentes e adultos, que apresentam conflitos existenciais e disfunções simples, depressões e deficiências em geral.
       
        Observamos também que, na série de cenas, se detectam alguns aspectos que precisam ser vistos na parte verbal da terapia e nas demais dramatizações em cena aberta que podem se suceder. A própria atividade criativa já facilita o processo psicoterápico, evitando-se a interpretação intelectual dos cenários. Constatamos que o uso deste Jogo despertou a atividade onírica de alguns pacientes, incluindo nos seus sonhos alguns personagens escolhidos numa atividade anterior de Sandplay.
        Por outro lado, foi surpreendente a aceitação desta técnica em grupos psiccoterápicos, com casais e grupos sócio-educativos, em especial em supervisões.             
         Enfim, como afirmam os junguianos (WEINRIB, 1993; FRANCO, 2003), observamos também que os símbolos constelados e representados na caixa têm uma função “curativa” natural, agindo como ponte para reconciliar os opostos envolvidos no drama apresentado. O ato criativo, por si só, pode nos mostrar os caminhos para o encaminhamento dos conflitos.

Aplicações do Sandplay Psicodramático:

          No nosso trabalho com psicoterapia de grupo psicodramática, o Sandplay Psicodramático pode ser utilizado como um jogo dramático, como modalidade de aquecimento, de duas maneiras. Na primeira, é dada a ênfase no grupo como um todo. Após um breve aquecimento, coloca-se a caixa de areia no centro da sala e solicita-se que o grupo monte um cenário conjuntamente. Cada um escolhe suas miniaturas e as coloca na caixa, um de cada vez, sendo observado pelos demais, que complementam a imagem, silenciosamente. Neste momento é muito importante a consigna do silêncio, para não permitir um excesso de racionalidade egóica. Depois, constroem coletivamente uma estória, cada um acrescentando uma parte, à medida que e sentir aquecido para tal (conforme figura abaixo).


 Figura 1: cenário de grupo.

           Ao iniciar a dramatização, é permitido que cada participante use qualquer personagem ou elemento do cenário para representar e assumir um papel e prosseguir na dramatização. O participante que atua poderá ser entrevistado pelo terapeuta, que poderá fazer uso oportuno de técnicas básicas ( duplo, espelho solilóquio e inversão de papéis), enquanto a ação dramática se desenvolve e o tema protagônico se desdobra e se elucida.
         Após o grupo construir coletivamente a estória e dramatizar o que for necessário, tenta entrar em consenso quanto ao seu título (ou títulos possíveis) e a um cenário final. Segue-se, após o consenso de que a dramatização pode chegar a um final definido pelo grupo, à etapa do compartilhar de sentimentos.
         Na segunda forma de trabalho em grupo, é dada ênfase aos sub-grupos (quando o grupo é grande ou o momento grupal requer que se trabalhe a situação em subgrupos). Pedimos que cada subgrupo construa uma cena com miniaturas; em seguida, que crie sua estória e a encene (dramatize), ou no cenário do Sandplay ou em cena aberta, como preferir. Neste caso, o Sandplay é usado no contexto do Psicodrama como uma técnica de aquecimento para o trabalho psicodramático posterior, servindo para ativar e despertar temas protagônicos.
          Adotamos o Sandplay Psicodramático em três contextos: 1) no contexto do psicodrama bipessoal, quando a ênfase é dada a um indivíduo, às suas relações consigo e com as figuras do seu mundo, à sua sociometria grupal interna, assim como à sua relação interpessoal com o seu terapeuta; 2) no contexto da psicoterapia psicodramática em grupo, quando a ênfase é dada ao indivíduo em grupo, ao grupo como um todo e às relações interpessoais presentes; 3) no contexto sócio-educacional, quando a ênfase é dada ao grupo social em questão, sendo muito utilizado em supervisões clinicas; 4) no contexto da relação conjugal, na terapia de base psicodramática com casais.
           Observamos que o clima de aplicação do jogo deve ser de aceitação incondicional, sem confronto, intelectualização ou interpretação. O desenvolvimento de uma relação mais télica entre terapeuta e cliente deverá já ter sido iniciado no processo terapêutico. A meta também é fornecer um espaço acolhedor, relaxado, materno, uma espécie de “útero psicológico”. A ênfase na experiência, além da representação simbólica concreta do mundo interior, converte a fantasia numa realidade tridimensional, suplementar. Isto ajuda a fixar e concretizar (objetivar o subjetivo) e a fantasiar.
  Na nossa experiência, o Sandplay Psicodramático tem despertado em especial o interesse de grupos terapêuticos, por possibilitarem a emergência de conflitos pessoais e interpessoais, revelarem tramas e questões de subgrupos, questões que permeiam o co-inconsciente grupal. Tem sido um jogo bastante solicitado espontaneamente pelos pacientes, que afirmam de vez em quando sentirem, inclusive, “saudade” dos cenários, ou do simples fazer cenários e criar estórias como forma de aquecimento no início da sessão, como forma de avaliar subjetivamente o tratamento, de mobilizar novos conteúdos, etc.
  Utilizamos esta estratégia de trabalho com o foco sócio-educacional, para trabalhar a supervisão de alunos do curso de Formação em Psicodrama na PROFINT/SE, aquecendo para que este entre no papel de seu cliente e, desenvolvendo na caixa um cenário que este (seu cliente), poderia desenvolver. Outra forma é solicitar que ele crie um cenário que represente a sua relação com o seu cliente. Assim, podemos analisar como o terapeuta internalizou as imagens internas do seu cliente, verificar melhores estratégias de trabalho, fatores télicos e transferenciais, impedimentos, defesas, etc.
  Outro caminho utilizado é a inserção deste jogo no trabalho do Psicodrama aplicado ás organizações, quando solicitamos que, por exemplo, numa escola, os professores desenvolvam cenários em grupo, focalizados nas questões institucionais. Estas experiências favorecem a emergência do co-consciente e do co-inconsciente grupal, assim como a emergência de temas protagônicos a serem trabalhados coletivamente.
 
Exemplos do uso do Sandplay Psicodramático no contexto clínico:

1.No Sociodrama de Casais:

             Este jogo, na modalidade psicodramática, também é aplicado no contexto do sociodrama de casais. Como instrução inicial, propomos que o casal construa (juntos ou em separado) um cenário representando sua relação. Quando os cenários são feitos em separado, cada um pode dar um título ao seu cenário, contar uma estória, dramatizar e, em seguida, procede-se ao compartilhamento de percepções mútuas e sentimentos. Quando o cenário é construído conjuntamente, a estória e o título também o são.
          Temos analisado qualitativamente os resultados de cada casal em atendimento e observamos que, o revelar simultâneo de certas imagens internas pode possibilitar ao casal uma percepção nova e diferente do relacionamento, onde aparecem elementos significativos que serão temas durante o processo terapêutico em curso. Além de concretizar a dinâmica do casal, pode ser um valioso instrumento exploratório (em psicodiagnóstico).
              A caixa da areia se apresenta como um setting físico e simbólico continente para os problemas do casal. Facilita que os conteúdos do co-inconsciente conjugal e do inconsciente pessoal sejam expressos, assim como as imagens arquetípicas do inconsciente coletivo, que perpassam a relação conjugal ou são constelados, em determinado momento.
             Por outro lado, possibilita que a emergência  de padrões de comunicação presentes na relação conjugal, principalmente os não verbais. Assim, o Sandplay Psicodramático viabiliza a interação não verbal entre o casal e promove a conscientização de aspectos desconhecidos da relação. Observamos, por exemplo, os símbolos da aliança conjugal e as motivações inconscientes para a escolha do cônjuge. Para ilustrar este processo, relatamos brevemente um momento da terapia de um casal por nós atendido.
           Era um casal de noivos que estava se relacionando há oito anos, mas ainda não haviam se casado. Ele tinha 32 anos e ela 29, profissionais liberais, de classe média. Ela se queixava do excesso de possessividade e desconfiança dele; ele, por sua vez, se queixava da indiferença e grosserias dela. Estavam construindo uma casa e procuraram a psicoterapia por se sentirem inseguros quanto à decisão do casamento futuro.
            Na 4ª. sessão foi proposto pela terapeuta que construíssem um cenário na caixa de areia e eles preferiram fazer dois cenários em separado, ao invés de apenas um, conjuntamente. Ela se adiantou e fez o seu, deu o título de "Sem Esperanças", e criou sua estória. Solicitada pela terapeuta, incorporou os papéis de alguns personagens que criou e, em seguida, foi entrevistada nos papeis destes. Ambos compartilharam e comentaram o seu cenário. Terminou sua cena chorando, afirmando sentir-se "cansada e sem esperanças de que ele pudesse mudar" (sic).
            Em seguida, o noivo construiu o seu cenário (vide figura 2), que incluiu, em sequência, as miniaturas: 1) Mini escultura “La Pietá”; 2) uma boneca, vestida como profissional (e de costas para a imagem anterior); 3) um barco no mar; 4) a imagem de Jesus crucificado; 5) a imagem da deusa da Justiça (vida profissional dele); 6) uma casa com um jardim; 7) duas crianças (2 filhos); 8) um casal (lado a lado).
           Criou a estória de um homem que “era feliz e recebia muito apoio da mulher, mas que fora abandonado pela mesma, e teve de atravessar sozinho uma crise emocional, só confiando em Jesus Cristo neste momento” (sic). Fora abandonado pela mulher, mas que sonhava, no futuro, passar num bom concurso na sua profissão, casar com ela e ter filhos.
           Ao comentarem sobre o cenário do homem ele revelou que, no início (nos 5 primeiros anos de relacionamento), a noiva realmente o “carregou no colo” (sic), pacientemente, e o ensinou a amar (referiu-se à miniatura 1). Depois, comentou que ela lhe virou as costas, ficou rude e impaciente (referiu-se à miniatura 2). Daí, ele teve de atravessar um “mar bravio e a noite escura da sua alma, sozinho, sendo apoiado pela sua fé e pelo senso de justiça” (sic). No entanto, afirmou que nos 5 primeiros anos ele a traía muito, tinha outras mulheres e ela o aceitava, compreendendo e esperando que ele amadurecesse.
           Ela, muito inquieta, fez uma intervenção neste momento e afirmou que, hoje, se encontra cansada deste papel de “mãe boazinha dele” (sic). A terapeuta pontuou que a imagem escolhida por ele, a miniatura 1, da famosa escultura “La Pietá”, era representativa de uma relação protetora mãe e filho. Ele, surpreso, disse não ter lembrado disto, conscientemente, ao escolher tal miniatura.
           Passou em seguida a relatar a sua história de relação com sua mãe, que antes era protetora em excesso para com ele, mas que "lhe virara as costas" (sic), após ele não ter correspondido às suas vontades, nem seguido os projetos que ela sonhara para ele. Sentiu-se rejeitado pela mãe e deprimido. Associou neste momento à sua necessidade de que sua namorada o aceitasse em tudo, suprisse as carências dele, e à sua eterna desconfiança do afeto incondicional dela (como transferência materna). Viu o quanto cobrava da namorada o que antes possuía da mãe: mimos, aceitação incondicional e atenção exclusiva.


 Figura 2: cenário do noivo.

         A terapeuta pediu em seguida que ela entrasse em cenário dele e se colocasse, se ele permitisse. Como ele permitiu, ela mexeu nos bonecos que estavam lado a lado (miniatura 8) e os colocou frente a frente, iniciando um confronto verbal com ele, colocando os bonecos no centro da caixa. Entrou no papel da boneca (ela) e verbalizou o que precisava dele: ser colocada agora no colo e compreendida no seu cansaço. Queria ser reconhecida “não como a mãe dele, mas como a sua mulher” (sic). Ele respondeu entrando no papel do boneco que representava ele e, depois, conduzidos pela terapeuta que se utilizou das técnicas do duplo e da inversão, vivenciaram uma verdadeira inversão de papéis.
        Concluíram esta sessão emocionados e abraçados, compartilhando suas percepções e necessidades mútuas. Afirmaram que não queriam se apegar a um projeto idealizado de casamento futuro, não podiam alimentar "esperanças", sem antes se conhecerem melhor, reconhecerem as sombras e complexos pessoais que afetam a relação, etc. Afirmaram que a sessão com o Sandplay foi bastante elucidativa para clarear um conflito central da relação do casal.

2. No Psicodrama com crianças:
  
          As crianças naturalmente já chegam ao setting terapêutico aquecidas, inclusive para um trabalho com a caixa de areia. Desde a 1ª sessão, ao entrar na sala, correm para frente da estante onde se encontram as miniaturas, olham cada uma atentamente, encantadas e surpresas por terem ido se consultar com uma pessoa cheia de brinquedos, ou seja, uma pessoa que “gosta do que elas gostam” e que entende o seu mundo infantil. Elas não se importam em se sujar ao mexer na areia, pelo contrário, são atraídas por esta. São mais abertas ao lúdico, já estão preparadas para a brincadeira, pois sua flexibilidade, liberdade, espontaneidade e criatividade são genuínas. Sua mente ainda não está habitada pelo excesso de conservas culturais, de princípios morais que cristalizam suas ações, em geral são livres pra criar.
           Já vimos neste capítulo como as técnicas psicodramáticas são aplicadas à caixa de areia, da construção do cenário à criação de uma estória. Na nossa experiência, as crianças demonstram mais facilidade em montar o cenário deixando fluir suas imagens inconscientes e um pouco de dificuldade quando damos a consigna de “criar uma estória”. Ficam paradas e um pouco confusas se aquilo faz parte mesmo de uma brincadeira, pois agora passamos para um momento mais verbal. No entanto, elas criam as estórias com mais facilidade e espontaneidade a partir do “Era uma vez...”, pois retomamos o imaginário quando usamos este termo, o que também torna o ambiente da caixa de areia mais seguro e livre para os sentimentos e os conflitos surgirem.
         As crianças menores geralmente não fazem a ligação entre sua vida real e os personagens no momento em que estão criando a estória, o que os adultos fazem com facilidade e com freqüência.
         Observamos durante as experiências com caixa de areia, que este instrumento terapêutico funciona como objeto intermediário e lúdico facilitador na interação com a criança. Crianças mais tímidas, introspectivas ou com dificuldades na comunicação participam ativamente de todo processo na caixa de areia. A caixa é como um útero seguro, no qual as crianças ficam à vontade, externam conflitos reprimidos e, muitas vezes, obscuros à própria consciência.
         Acompanhando o caso de uma linda menina de 10 anos, surpreendemo-nos quando em uma caixa de areia ela escolheu duas miniaturas, uma caveira e uma bailarina, colocou-as centralizadas uma de frente pra outra e disse que ambas a representavam. A garota explicou seu cenário: a caveira era como ela se percebia, gordinha, feia, com notas baixas, menos inteligente que seu irmão, que não gosta de fazer balé. Era também como ela estava se sentindo, com angústia, tristeza, infeliz. Já a bailarina, era como a mãe dela gostaria que ela fosse. Trabalhar esta imagem dualizada dela mesma, assim como a relação mãe-filha a partir da construção do cenário da caixa, foi mais suave e significativo para a menina do que verbalmente.
         É importante estar atento à postura do terapeuta diante das crianças. Não fingir nas brincadeiras, ser espontâneo tanto quanto possível, pois a criança sente quando o adulto está fingindo brincar e, automaticamente, se retrai ao compartilhar dados de sua história de vida.
      Retomando outro caso, após a entrevista com os pais na 1ª sessão, tivemos o primeiro contato com Marcos (nome fictício), um cliente de quatro anos, na 2ª sessão. Ele era magro, sorridente, comunicativo e ativo. O motivo da busca pela psicoterapia foi sua dificuldade de aprendizagem na escola. Durante dez sessões, tanto nos jogos, no uso do sandplay na caixa de areia e na dramatização de um sonho, percebemos o quanto o mundo interno de Marcos estava conflituoso, deixando-o com dificuldades de atenção e concentração e com agitação psicomotora. A queixa da professora de Marcos era a hiperatividade, pois ela não conseguia mantê-lo em sala de aula. .
         Na entrevista com os pais, relataram que durante estes primeiros anos de vida de Marcos eles não iam para a praia, não o deixavam tocar em animais e nem no chão, só a partir dos 2 anos, o que o fez andar mais tarde; mas, os pais não reconheciam isso como explicação para tal fato. A mãe não trabalhava, tinha mania de limpeza e percebia os problemas do filho em casa e na escola, tomando a decisão de seguir a sugestão da professora de procurar ajuda em psicoterapia. O pai trabalhava e passava o dia fora de casa, mas discordava com a necessidade de psicoterapia. Os pais lhe podavam atitudes de amadurecimento, uma vez que ainda dormia entre os pais e fazia uso da mamadeira constantemente, até para beber água.
           Numa sessão, Marcos pegou vários meios de transportes em miniaturas, carros, aviões, helicópteros, caminhões e barcos, virou todos de cabeça para baixo e os cobriu de areia (os enterrou). Demonstrou um turbilhão de interesses e vontade de acabar logo aquela estória para passar para a próxima brincadeira. Ao perguntar o nome daquela brincadeira, ele respondeu “Tá tudo morto” (sic). A terapeuta perguntou: “Como assim, está tudo morto?”; e ele respondeu: “Sou eu, tá tudo morto, acabou. Não quero mais” (sic). Essas imagens inconscientes de destruição interna foram projetadas em cada miniatura enterrada.
             Como conseqüência da mobilização do trabalho na caixa da sessão anterior, na seguinte Marcos nos trouxe um sonho, que trabalhamos com dramatização, contribuindo assim para desvendar conteúdos inconscientes e seus complexos. Portanto, na sessão seguinte a esta caixa de areia, Marcos chegou dizendo que teve um sonho e que queria contar: “O papai atropelava a mamãe, ela caía, jogada na calçada e morria...”(sic).
            Sugerimos fazer de conta que o sonho estava acontecendo naquele cenário. Solicitamos que ele recriasse a cena do sonho de onde ele parou, utilizando a técnica da extensão psicodramática do sonho, utilizando a realização simbólica e a realidade suplementar, para aliviar a tensão presente naquela cena. Então, na cena, ele vivia os papéis e ia verbalizando: “Eu viro médico, de repente, para salvar a mamãe... e depois bato no papai...”
           Durante a encenação, sugerimos algumas inversões de papéis entre Marcos, o pai e a mãe. Foi uma dramatização diferente, em ritmo acelerado, com muita ação, na qual a terapeuta e a criança jogavam e invertiam os papéis, num jogo que representava um drama intenso da vida da criança.
           Neste sonho, ele entrou em contato com o medo de perder a mãe e de que o pai ocupe todo amor da mãe, tomando-a só pra ele; além dos sentimentos de culpa se não conseguisse proteger e salvar a mãe. Pois, com apenas  4 anos, quando o pai sai pra trabalhar ele se sente responsável em tomar conta da casa.
            Nas sessões seguintes trabalhamos os limites que não eram colocados pelos pais para esta criança: limites de horário, de arrumar brinquedos, de cuidado com os brinquedos e miniaturas, além do manuseio com a areia, não pular em cima das poltronas, nem espalhar almofadas, ter hora para cada coisa, etc. No manuseio da caixa, com areia e miniaturas, trabalhamos as regras, os limites que Marcos precisava desenvolver. Ele sempre questionava e ficava inquieto na poltrona, mas o interesse pelo jogo do Sandplay o fazia superar tal dificuldade. Muitas vezes o cenário da caixa era rapidamente abandonado e passava a ser dramatizado em cena aberta, com Marcos assumindo o enredo e os papeis das miniaturas antes escolhidas.
            A disposição do terapeuta no trabalho com crianças é essencial, pois a dramatização é espontânea, sem freios e sem vergonha de falar o que sente.No início de algumas sessões, realizamos exercícios de relaxamento com músicas suaves e propomos breves internalizações, com o objetivo de aquecer a criança para dramatização/desenvolvimento da sessão e trabalhar a atenção e concentração também durante as atividades de Sandplay.
            No nosso entendimento do psicodrama com crianças é importante trabalhar também o compromisso dos pais e a co-responsabilização destes com o processo. E talvez, eventualmente trabalhar com o Sandplay o desenvolvimento do papel de pais, solicitando que eles montem cenários de como se sentem neste papel, cenários da família, etc. Neste caso, o uso de temas pré-estabelecidos pode ajudar na objetivação do subjetivo e facilitar na visualização de novos focos a serem trabalhados com a criança.  

Finalizando...

         Enfim, revendo o percurso do Psicodrama e pensando nas suas perspectivas futuras, acreditamos que este tem muito a crescer quando os psicodramatistas ousam não apenas reproduzir as técnicas já existentes, mas tentam criar novas técnicas, na interface com outras abordagens existentes, que trabalhem no sentido de desenvolvimento do homem espontâneo-criativo, num exercício de trans-disciplinaridade. Abordagens que, como o Sandplay, visam captar imagens inconscientes, compreendendo-as através da multiplicidade dos itinerários humanos lógico-racionais e mítico-imaginários.
  Concluímos com nossa pesquisa que a técnica do Sandplay pode ser uma excelente auxiliar no processo psicodramático. Observamos que ela pode ser um jogo dramático que encerra muitas vantagens, especialmente para o psicodramatista tímido ou para o cliente que ainda não esteja familiarizado com a dramatização em cena aberta, que prefere não se movimentar muito ou está impossibilitado de assim proceder.
 A técnica mantém, até certo ponto, as possibilidades da ação dramática, pois não envolve o corpo do paciente, esta sendo a sua maior desvantagem; mas, em contrapartida, oferece novas possibilidades de jogar com as imagens, mais amplas e ricas, tridimensionais, principalmente se o número de miniaturas disponíveis nas prateleiras do terapeuta for grande e variado, suscitando um número maior de associações e despertando a intuição conjunta do par terapeuta-cliente. Neste sentido, ultrapassa o valor do desenho, pois supera a dificuldade do saber desenhar, embora seja um recurso plástico, cenográfico, escultural. As miniaturas funcionam também como excelentes egos auxiliares no psicodrama bipessoal, que carece deste recurso.
  Nos trabalhos grupais, tanto no foco psicoterápico quanto no sócio-educacional, observamos que favorece a emergência das questões co-inconscientes que atravessam as relações interpessoais, muitas vezes revelando também a constelação de questões arquetípicas e sincrônicas.
  O que não podemos perder de vista no trabalho com esta estratégia terapêutica é a visão filosófica que a fundamenta, a postura psicodramática e seus conceitos teórico-técnicos básicos, que inclui o desenvolvimento da espontaneidade, da tele, a promoção do lúdico, o privilégio dado ao jogo no “como se” visando o Encontro Existencial. Não devemos esquecer o contato com a perspectiva de seus vínculos sociais e o desenvolvimento de seus diversos papéis, nos diferentes contextos. Se, para J. L. Moreno, o Psicodrama é a busca das verdades veladas por métodos dramáticos, ele nos deixou o legado de continuar a sua obra, recriando-a através do desenvolvimento de novos caminhos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AMMANN, Ruth. A Terapia do Jogo de Areia - imagens que curam a alma e desenvolvem a  personalidade. São Paulo, Paulus: 2002. CAPRA, Fritjof.  As Conexões Ocultas – Ciência para uma vida sustentável. São Paulo, Cultrix: 2002.CAPRA, Fritjof. O Tao da Física – um paralelo entre a Física Moderna e o  Misticismo Oriental. São Paulo, Cultrix: 1975.
CUKIER, Rosa. Psicodrama Bipessoal - teoria e técnica. São Paulo, Agora:2000.GRINBERG, Luis Paulo. Jung, o homem criativo. São Paulo, FTD: 1997.FONSECA FILHO, J. de S. Psicodrama da Loucura - correlações entre Buber e Moreno. São Paulo, Ágora: 1980.FRANCO, Aicil. O jogo de areia: uma intervenção clínica.São Paulo: s.n., 2003 (252 pp). Dissertação (mestrado) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Departamento de Psicologia Clínica.Orientadora: Elizabeth Batista Pinto Wiese. LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento aos 6 anos - A psicocinética na idade pré-escolar. 7ª Edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.MACIEL, Corintha. Mitodrama. São Paulo, Ágora: 2000. MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo, Cultrix: 1975. MORIN, Edgar. A Religação dos Saberes: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: 2001.PENA-VEGA & NASCIMENTO. O Pensar Complexo – Edgar Morin e a  crise da Modernidade. Rio de Janeiro, Garamond:1999.WEINRIB, Estelle. Imagens do Self: o processo terapêutico na Caixa de Areia.São Paulo: 1993. RAMALHO, Cybele. Aproximações entre Jung e Moreno. São Paulo. Ágora, 2002.SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente.Rio de Janeiro, Alhambra: 1981.SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. 17ª. Edição. Rio de Janeiro. Paz e Terra:1997.
*As autoras:
1.       Cybele Maria Rabelo Ramalho – psicóloga, psicodramatista didata e supervisora, diretora da PROFINT/SE, especialista em Psicoterapia Analítica, professora da Universidade Federal de Sergipe, autora do livro “Aproximações entre Jung e Moreno”(2002) e co-autora do livro “Descobrindo enigmas entre heróis e contos de fadas - entre a Psicologia Analítica e o Psicodrama” (2008). Endereço: Praça da Bandeira, 465, sala 407, Aracaju, SE. CEP: 49010470. Fone (79) 32144360 e 99872693. E-mail: rabelo.ramalho@hotmail.com.

2.       Vanessa Ramalho Ferreira Strauch - psicóloga, psicodramatista (PROFINT/SE), atualmente atuante no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) em Salvador/BA e com especialização em Saúde Pública. Endereço: Av. Oceânica, 2411, apto. 205, Edf. Costa do Sol, Ondina. Salvador / BA. E-mail: ramalhonessa@uol.com.br.